"Quando sua determinação muda, tudo o mais começa a se mover

em direção ao seu desejo".

3 de jan de 2009

GOSHO - Resposta à Dama Ueno(

Ueno Ama Gozen Gohenji – páginas 1580 a 1582)

Recebi uma fardo de arroz polido e um outro de taros lavados e, em gratidão, recitei Nam-myoho-rengue-kyo.
O Myoho-rengue-kyo é como o lótus. O maha-mandara no céu e a flor da cerejeira no mundo humano são flores celebradas, mas o Buda não escolheu nenhuma delas para comparar ao Sutra de Lótus. De todas as flores, ele escolheu a flor de lótus para simbolizar o Sutra de Lótus. Há uma razão para isso. Algumas plantas dão primeiramente as flores, e depois as sementes, enquanto que outras as sementes vêm antes das flores. Algumas dão apenas uma flor e muitas sementes, outras dão muitas flores mas só uma semente, e ainda outras dão sementes e não flores. Assim, existem muitas variedades de plantas, mas o lótus é a única que dá flores e sementes simultaneamente. Os benefícios que todos os outros sutras não são definidos, porque eles ensinam que é primeiramente preciso fazer boas causas e somente então tornar-se Buda, numa época posterior. O Sutra de Lótus é inteiramente diferente. A mão que o acolher atingirá imediatamente a iluminação, e a boca que o recitar entrará imediatamente no estado de Buda, assim como a lua reflete-se na água no instante em que aparece atrás das montanhas do leste, ou como o som e o eco aparecem simultaneamente. É por este motivo que o sutra afirma: "Entre os que ouvem esta Lei, não há ninguém que não atingirá o Estado de Buda". Essa passagem afirma que se existem cem ou mil pessoas que abraçam este sutra, sem uma única exceção todas as cem ou mil tornar-se-ão Budas. Em sua carta, a senhora afirma: "Estou fazendo estas doações para comemorar o aniversário do falecimento do meu pai, lorde Matsuno Rokuro-zaemon. Como ele deixou muitos filhos, cerimônias serão feitas em sua memória de muitas diferentes maneiras. Eu acredito, entretanto, que essas cerimônias serão caluniosas a menos que rigorosamente baseadas no Sutra de Lótus". O ensino dourado do Buda Sakyamuni diz: "O Honrado-pelo-Mundo há tempo expôs suas doutrinas e deve agora revelar a verdade". O Buda Taho deu testemunho dizendo: "Todos os ensinos do Myoho-rengue-kyo são verdadeiros". E todos os Budas das dez direções deram crédito à verdade do sutra, estendendo suas línguas até o céu Brahma.
O sudoeste do Japão, além do oceano, há um país chamado China. Naquele país, algumas pessoas acreditam no Buda mas não em deuses, enquanto que outras fazem exatamente o contrário. Talvez um situação semelhante tenha existido nos dias primitivos em nosso próprio país. Seja como for, certa vez, houve um calígrafo na China chamado Wu-lung. Em sua arte, ele não tinha rival em todo o país, tal como Dofu ou Kozei no Japão. Ele odiava o Budismo e jurou que jamais iria transcrever escrituras budistas. Quando o seu fim se aproximou, ele caiu seriamente doente. No seu leito de morte, expressou seus últimos desejos ao seu filho, dizendo: "Você é meu filho. Não somente herdou a minha habilidade, como escreve com melhor mão que eu próprio. Não importando que má influência possa agir sobre você, não deverá copiar o Sutra de Lótus". E então o sangue jorrou como fonte, dos seus cinco órgãos dos sentidos. Sua língua partiu-se em oito partes e o corpo desintegrou-se em dez direções. Mas os seus parentes, ignorando os três maus caminhos, não compreenderam que isso era sinal de que ele cairia no estado de Inferno.
O nome do filho era I-Lung. Ele também mostrou ser o melhor calígrafo da China. Obediente ao desejo do seu pai, ele jurou que jamais transcreveria o Sutra de Lótus. O rei, na época, tinha como nome Tsu-ma. Ele acreditava no Budismo e tinha especialmente o Sutra de Lótus em alta consideração. Ele queria ter esse sutra transcrito por um excelente calígrafo – que não fosse outro senão o melhor do país – para ter assim uma cópia para si mesmo. Assim, convocou I-Lung. Este explicou que o desejo do seu pai o proibia, e rogou ao rei que o dispensasse da tarefa. Não desejando obrigá-lo a desobedecer o desejo do pai, o rei chamou um outro calígrafo para transcrever o sutra. O resultado, entretanto, estava longe de satisfatório.
O rei mandou novamente chamar I-Lung e disse-lhe: "Como o senhor afirma que o desejo do seu pai lhe proíbe, nós não o compelimos a transcrever o sutra. Nós insistimos, entretanto, que obedeça pelo menos a nossa ordem de escrever os títulos dos oitos volumes. I-Lung suplicou repetidamente para ser dispensado. O rei, agora furioso, disse: "O senhor continua insistindo no desejo do seu pai, mas ele foi tão súdito nosso quanto o senhor é. Caso recuse escrever os títulos temendo faltar para com o amor filial, nós o acusaremos de desobediência a decreto real". Dessa maneira, o rei repetiu a rigorosa ordem. I-Lung, embora não desejando contrariar o pai, compreendeu que não podia mais desobedecer a ordem real, e então escreveu os títulos (dos oitos volumes) do Sutra de Lótus, e entregou seu trabalho ao rei.
Voltando para casa, I-Lung visitou o túmulo do seu pai e, derramando lágrimas, relatou: "O rei ordenou-me tão rigorosamente que eu, contra a minha vontade, escrevi os títulos (dos oito volumes) do Sutra de Lótus". Na sua tristeza não podia fugir à culpa de ser mau filho, e ficou junto ao túmulo durante três dias, jejuando até a beira da morte. Na hora do Tigre no terceiro dia, ele estava quase morto e sentiu como se estivesse sonhando. Ele olhou para o céu e viu um ser celeste que parecia exatamente igual a Taishaku numa pintura. Sua multidão de seguidores enchia o céu e a terra. I-Lung perguntou-lhe que era. O ser celeste respondeu: "Não me reconhece ? Eu sou seu pai, Wu-lung. Enquanto estive no mundo humano, aderi às escrituras não budistas e mantive inimizade com o Budismo, particularmente com o Sutra de Lótus. Por essa razão, caí no inferno dos incessantes sofrimentos.
"Todos os dias a minha língua era arrancada várias centenas de vezes. Ora estava morto, ora estava vivo. Vivi chorando em agonia, alternadamente olhando para o céu e atirando-me ao solo, mas não havia ninguém que ouvisse os meus gritos. Queria comunicar ao mundo humano a minha angústia, mas não havia como fazê-lo. Sempre que você insistia em cumprir o meu desejo, suas palavras se transformavam ora em chamas para atormentar-me, ora em espadas que choviam do céu sobre mim. Seu procedimento foi extremamente impróprio de filho. Entretanto, como estava agindo para cumprir o meu desejo, não pude odiá-lo pois eu estava apenas recebendo a retribuição do carma do meu próprio ato.
"Enquanto pensava desse modo, apareceu repentinamente um Buda dourado no inferno dos incessantes sofrimentos, e declarou: "Mesmo que o universo esteja repleto de pessoas que tenham destruído suas boas causas, se elas ouvirem o Sutra de Lótus mesmo uma só vez, jamais deixarão de atingir a Iluminação". Quando esse Buda entrou no inferno dos incessantes sofrimentos, foi como se tivesse havia um dilúvio num grande incêndio. Quando meus sofrimentos diminuíram um pouco, juntei as palmas das mãos e perguntei-lhe que Buda ele era. O Buda respondeu: "Eu sou o caráter myo, um dos sessenta e quatro caracteres dos títulos do Sutra de Lótus que o seu filho, I-Lung, está agora escrevendo". Como oito caracteres constituem o título de cada um dos oitos volumes, um total de sessenta e quatro Budas apareceram e brilharam como muitas luas no plenilúnio, e a extrema escuridão do inferno dos incessantes sofrimentos transformou-se instantaneamente num fulgor ofuscante. Além disso, de acordo como o princípio de que todo lugar está, sem que se alterem as suas características, e é em si a terra do Buda, o inferno dos incessantes sofrimentos tornou-se imediatamente a capital da eterna terra do Buda. Eu e todos os outros ocupantes transformamo-nos em Budas sentados em flores de lótus, e acabamos de ascender ao palácio interno do céu Tushita. Estou relatando-lhe isso em primeira mão".
I-Lung disse: "Foi a minha mão que escreveu os títulos. Como poderia o senhor ter sido salvo? Além disso, eu não os escrevi com fé (no Sutra de Lótus). Como seria possível isso tê-lo salvo?" Seu pai respondeu: "Como é tolo! Sua mão é a minha mão, e seu corpo é meu corpo. Seu ato de escrever caracteres é equivalente a eu fazê-lo. Embora você não tivesse verdadeira fé, não obstante escreveu os títulos com sua mão. Portanto, eu fui salvo. Imagine uma criança que ponha fogo em algo e, sem a mínima intenção de fazê-lo, provoca um incêndio. O mesmo acontece com o Sutra de Lótus. Se alguém professa a fé nele, mesmo involuntariamente, jamais deixará de tornar-se Buda. Entretanto, como estamos na classe leiga, estamos em melhor posição para nos arrependermos das palavras caluniosas passadas não importando quão graves elas tenham sido. I-Lung relatou tudo isto ao rei. O rei disse: "Nosso desejo foi respondido com esplêndidos resultados". Desde então, I-Lung desfrutou cada vez mais do favor real, e todo o povo do país passou a crer no Sutra de Lótus.
O falecido Goro e o falecido lorde Matsuno foram, respectivamente, seu filho e seu pai. A senhora é a filha do lorde. Portanto, acredito que ele deve estar neste momento no palácio interno do céu Tushita. Permita que Hoki-bo lhe explique esta carta. Como escrevi apressadamente, foi impossível dar detalhes.
Com meu profundo respeito,
Nitiren,
Em 15 de novembro de 1281.
Fundo de Cena
Nitiren Daishonin escreveu esta carta em 15 de novembro de 1281 a Ueno-Ama Gozen, mãe de Nanjo Tokimitsu, que doou parte de suas terras para Nikko Shonin fundar o templo principal Taisekiji. Daishonin contava sessenta anos de idade quando enviou esta carta em resposta aos oferecimentos que Ueno-Ama Gozen havia feito para honrar a morte de seu pai, lorde Matsuno Rokurozaemon.
Nesta carta, Nitiren Daishonin faz a comparação da Lei Mística ou Myoho-rengue-kyo com o lótus e, contando uma antiga história chinesa de dois mestres calígrafos, ensina-lhe a importância de manter a fé na Lei Mística para continuar a fidelidade ao seu falecido pai.
Primeiramente, Nitiren Daishonin explica a superioridade do Sutra de Lótus sobre todas as outras escrituras, em termos da sua revelação da simultaneidade da causa e do efeito, para atingir o Estado de Buda. E então, citando a história dos renomados calígrafos da antiga China, Wu-lung e I-Lung, que eram respectivamente pai e filho, Nitiren Daishonin lhe assegura que quando o filho abraça a fé no Sutra de Lótus, o pai pode atingir a iluminação. Na história que ele conta, o calígrafo Wu-lung caiu no inferno devido ao seu ódio ao Sutra de Lótus, mas como seu filho I-Lung transcreveu o título do Sutra, o pai salvou-se dos sofrimentos do inferno.
Ueno-ama Gozen teve como marido Nanjo Hyoe-Shitiro, que servia o clã governante Hojo. Ele era o chefe da vila de Ueno, nas vastas encostas do monte Fuji, na área vizinha ao atual templo Taisekiji. Assim, ele era geralmente chamado lorde Ueno. Afirma-se que o casal converteu-se à fé nos ensinos de Daishonin, enquanto servia o governo de Kamakura. O terceiro Sumo-prelado Nitimoku Shonin foi neto de Ueno-ama Gozen. Quando seu marido faleceu, em 1265, Nanjo Tokimitsu tinha apenas sete anos de idade, mas ela o educou admiravelmente, e ele sucedeu o pai como lorde local. A forte e pura fé de Tokimitsu, ao que se acredita, desenvolveu-se a partir da fé inabalável da mãe que lhe permitiu superar muitas dificuldades. Admite-se que ela tenha vivido mais que Nitiren Daishonin, mas não se conhece a data exata do seu falecimento.


As mais Belas Histórias Budistas - As Escrituras de Nitiren DaishoninEndereço: http://www.vertex.com.br/users/san/goshos e-mail: sandro@vertex.com.br

Nenhum comentário: