"Quando sua determinação muda, tudo o mais começa a se mover

em direção ao seu desejo".

3 de jan de 2009

GOSHO - O Rico Sudatta

(Ueno Dono Gohenji, págs. 1574 e 1575)

Recebi o seu oferecimento de um kan de moedas. Por ter demonstrado tal sinceridade, estou lhe dizendo o seguinte. Não deve pensar que eu seja um sacerdote ganancioso.
Há um caminho para se tornar um Buda facilmente, e ensinarei ao senhor. Ensinar algo a uma outra pessoa é como lubrificar as rodas de uma pesada carroça para que estas girem, ou como colocar um barco na água para fazê-lo flutuar sem dificuldade. O caminho para se tornar um buda facilmente não é nada extraordinário. É, por exemplo, dar água a uma pessoa com sede em tempo de seca ou proporcionar fogo para alguém congelando no frio. Ou, ainda é, conceder a uma outra pessoa algo insubstituível: quando a própria vida está para ser extinta por falta de alguma coisa, a pessoa oferece exatamente esse algo como donativo a um outro.
Houve certa vez um governante chamado Rei Konjiki. Seu país foi, durante doze anos, atormentado por uma grande seca, e um número incontável de pessoas morreram de fome. Nos rios, cadáveres se empilhavam como pontes, e, na terra, esqueletos se acumulavam como oiteiros de sepulcro. Naquele tempo, o Rei Konjiki concebeu uma grande aspiração à iluminação (para salvar o povo) e distribuiu uma grande quantidade de donativos. Ele cedeu tudo o que podia, até restarem apenas cinco meras medidas de arroz em sua despensa. Quando seus ministros o informaram de que isto o iria alimentar durante um único dia, o grande rei pegou as cinco medidas de arroz e a cada um de seus súditos famintos deu um grão, dois grãos, três grãos ou quatro grãos, distribuindo-os, dessa maneira, a todos. Então, ele voltou-se para o céu e bradou que morreria de fome no lugar do povo, tomando para si a dor da fome e sede deles. O céu escutou-o e imediatamente enviou-lhe a doce chuva da imortalidade. Quando essa chuva tocava os corpos ou caía sobre as faces das pessoas, a fome dela era satisfeita e, no espaço de um momento, todos os habitantes do país foram revivificados.
Na Índia, houve uma pessoa chamada Sudatta. Sete vezes ele ficou reduzido à pobreza, e sete vezes ele tornou-se um homem rico. Durante esse último período de privação, as pessoas (da cidade) haviam todas fugido ou perecido, até que sobraram apenas ele e sua esposa. Eles tinham somente cinco medidas de arroz, suficientes para se manterem por cinco dias. Nessa ocasião, cinco pessoas – Mahakashyapa, Shariputra, Ananda, Rahula e o Buda Sakyamuni – vieram, revezando-se para pedir donativos e receberam as cinco medidas de arroz. Daquele dia em diante, Sudatta tornou-se o homem mais rico em toda a Índia e construiu o Monastério Jetavana. Deve entender todas as situações similares a partir desses exemplos.
O senhor já se assemelha ao devoto do Sutra de Lótus, assim como um macaco se parece com o homem ou um bolinho de arroz lembra a lua. Por ter protegido tão intensamente as pessoas de Atsuhara, as pessoas deste país o consideram um traidor, como Masakado da era Shohei (931-938) ou Sadato da era Tengui (1053-1058). Isto ocorre unicamente porque o senhor entregou a sua vida ao Sutra de Lótus. O céu, de forma alguma, o considera um homem que traiu o seu lorde. Além disso, a sua pequena vila tem sido pesadamente tributada e o povo dela tem sido, repetidamente, submetido ao trabalho forçado, até o ponto de o senhor próprio não possuir nenhum cavalo para montar, e sua esposa e filhos carecem de roupas. Entretanto, apesar de sua própria pobreza, o senhor sentiu compaixão pelo devoto do Sutra de Lótus, pensando que ele deveria estar cercado pela neve nas profundezas das montanhas e necessitando de alimento. Assim, o senhor enviou-me um kan de moedas. O seu oferecimento é como o da mulher pobre que deu a um pedinte o único manto, que ela e seu marido dividiam, ou como o de Rida, que cedeu o painço de seu jarro a um pratyekabuddha. Quão admirável ! Falarei a respeito em maiores detalhes posteriormente.
Com meu profundo respeito,
NitirenEm 27 de dezembro de 1280.(END- Vol.VI, pág.185)

Fundo de Cena

Nitiren Daishonin escreveu este Gosho no Monte Minobu, no inverno de 1280, para Nanjo Tokimitsu, o jovem administrador da Vila Ueno na província de Suruga que era seu discípulo desde a infância. A partir da época em que Nitiren Daishonin veio a morar em Minobu, Tokimitsu tornou-se especialmente próximo de Nikko Shonin e apoiou os seus esforços de propagação na área Fuji. Durante a perseguição de Atsuhara, ele usou a sua influência para proteger os outros praticantes, abrigando alguns em sua própria casa e intervindo a favor da libertação daqueles que haviam sido presos. Nitiren Daishonin homenageou-o pela sua coragem denominando-o Ueno, o sábio, apesar de o rapaz mal ter vinte anos na época.
Este Gosho foi escrito no ano seguinte do clímax da Perseguição de Atsuhara. Naquela oportunidade as autoridades de Kamakura, em retaliação ao apoio de Tokimitsu aos seguidores de Nitiren Daishonin, impôs difíceis taxas punitivas à sua propriedade e exigiu que ele fornecesse homens para trabalho não pago. Entretanto, a despeito de sua própria pobreza, a primeira preocupação de Tokimitsu era com relação à Nitiren Daishonin, e, de alguma maneira, ele conseguiu enviar-lhe um kan de moedas. Profundamente comovido, Nitiren Daishonin escreveu-lhe esta carta, em resposta. Na primeira parte, ele louva o espírito de doação como uma causa que conduz à iluminação e explana dois tipos de oferecimentos. No primeiro caso, oferece-se a pessoa aquilo de que ela mais necessita. No segundo, dá-se a outra pessoa algo essencial a ela, embora o doador em si possa ter somente um item do mesmo, e não possa sustentar a sua vida sem isso. O espírito subjacente a tal ato é o da disposição de oferecer a própria vida, uma postura fundamental da fé.
Na parte seguinte, citando os exemplos do Rei Konjiki e do mercador Sudatta, cujo nome deu título ao Gosho, Nitiren Daishonin reafirma que o sincero espírito de dedicação expresso nos oferecimentos de Tokimitsu constitui o caminho direto para o estado de Buda e produzirá benefícios insondáveis.


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