"Quando sua determinação muda, tudo o mais começa a se mover

em direção ao seu desejo".

22 de jan de 2009

Abertura dos Olhos - Parte 1

Gosho - Explanação do presidente Ikeda
BRASIL SEIKYO, EDIÇÃO Nº 1366, PÁG. 3, 11 DE MAIO DE 1996.


Manifestando o estado de Buda em nossas vidas


[Gostaria de citar-lhe uma coisa em particular. Quando o lorde dessa província fez-me uma solicitação de oração para curar sua doença, fiquei na dúvida se iria aceitar. Mas como ele demonstrou certo grau de fé em Nitiren, eu achei que deveria orar para o Sutra de Lótus. Tinha certeza de que, se eu o fizesse, não haveria motivo para que as Dez Deusas não deixassem de reunir forças para socorrer-me. Argumentei, portanto, com o Sutra de Lótus, Sakyamuni, Taho e outros Budas de todo o universo, a Deusa do Sol, Hatiman e outras divindades, tanto maiores quanto menores. Tinha certeza de que eles considerariam meu pedido e responderiam através da cura da doença do lorde. Certamente não iriam jamais ignorar a oração de Nitiren. Eles responderiam tão certamente quanto uma pessoa esfrega uma parte dolorida ou coça um local irritado. E, realmente, o lorde recuperou-se. Com gratidão, ele presenteou Nitiren com uma estátua do Buda que veio numa rede juntamente com peixes pescados no mar. Ele o fez porque havia terminado o seu sofrimento que, com certeza, havia sido infligido pelas Dez Deusas. Os benefícios que ele merece atingirão o senhor e sua esposa. (END, vol. I, pág. 401.)]


“Como posso ajudar todos a tornarem-se felizes?”, “Como farei para possibilitar a todos receberem um grande benefício?”. Este é o constante pensamento do Buda.


Nitiren Daishonin disse que os benefícios que ele próprio recebeu certamente tornar-se-ão os benefícios de Funamori Yassaburo e de sua esposa. Os benefícios que os praticantes do Sutra de Lótus obtêm por meio de suas atividades certamente serão partilhados por todos os que os apóiam. O grande benefício da SGI ao desenvolver a propagação mundial da Lei Mística é na sua totalidade a boa sorte e benefício dos membros da SGI.

Pouco mais de um mês após Nitiren ter sido exilado em Izu, Ito Hachiro Zaemon, o lorde do distrito, caiu gravemente enfermo. Seus sintomas foram tão severos que Daishonin observou: “Parece que ele certamente morrerá.” (Gosho Zenshu, pág. 1225.)

Todo o poder e influência do mundo não podem curar uma doença, ou mesmo estender a vida de uma pessoa por uma hora. A riqueza, a posição e os poderes seculares não contam nada face aos sofrimentos fundamentais da vida: nascimento, velhice, doença e morte. Para Nitiren Daishonin, o lorde era um ser humano como outro qualquer; seu sofrimento não era diferente dos sofrimentos dos outros seres vivos.

Mas se a pessoa aflita não acredita na Lei Mística, mesmo as orações do Buda nada realizarão. O budismo é razão. Por o lorde ter evidenciado um certo grau de fé, Daishonin, com sua imensa benevolência, pôde curar sua doença.

O lorde, tendo escapado da morte, apreciou enormemente a preocupação de Daishonin por ele e agraciou-o com uma estátua de madeira de Sakyamuni que um pescador havia encontrado no mar.

Essa era uma época em que a fé no Buda Amida e em outras crenças era amplamente propagada e inicialmente a intenção de Daishonin era que se retornasse ao ponto primordial de Sakyamuni. Foi certamente com esse espírito — e não como um objeto de adoração — que ele aceitou a estátua. Também é possível que, como Buda Original, ele tivesse uma espécie de apego pela estátua de Sakyamuni, como se fosse uma criança.

Daishonin disse que seu benefício como praticante do Sutra de Lótus seria transmitido a Yassaburo e à sua esposa. A constante oração do Buda era a de partilhar seu benefício com os outros.

Quando Daishonin foi preso em Kamakura para ser executado nas cercanias de Tatsunokuti, ele declarou a Shijo Kingo, que o acompanhava: “Agora consagrarei minha vida para o Sutra de Lótus e dividirei os benefícios resultantes com meus pais e também com meus discípulos e crentes.” (END, vol. I, pág. 162.) Este é o espírito do Buda Original.

Pelo contrário, houve aqueles que, como os membros do clero da Nitiren Shoshu de hoje, estão sob a ilusão de que são absolutos e supõem com arrogância que eles próprios sejam diferentes e melhores do que os outros. À luz do Gosho, essas pessoas definitivamente não estão praticando o Budismo de Nitiren Daishonin.


[Todos nós, mortais comuns, temos vivido no mar do sofrimento desde o passado sem início. Entretanto, tendo nos tornado devotos do Sutra de Lótus, jamais deixaremos de ser budas iluminados à vida física e espiritual que sempre existiu desde o passado sem fim. Revelaremos a natureza imutável inata dentro de nós e também a sabedoria mística que nos capacita a compreender a verdade mística. Gozaremos um estado de vida tão indestrutível quanto um diamante. Como poderíamos então ser diferentes do Buda que emergiu do mar? O lorde Sakyamuni que afirmou: “Eu sou o único que posso salvá-los” (LS3, 70)1, numa época até mais distante que o Gohyaku-jintengo, não é ninguém senão nós mesmos. Esse é o ensino do Itinen Sanzen exposto no Sutra de Lótus. O nosso comportamento é a demonstração pessoal de que “eu estou sempre aqui ensinando a Lei” (LS16, 229.) Assim, todos nós somos entidades que incorporam o supremo ensino do Sutra de Lótus e a elevada vida do Buda Sakyamuni, mas as pessoas comuns jamais o compreendem. A passagem do capítulo Juryo que afirma “as pessoas deludidas não podem ver-me, mesmo quando estou junto” (LS16, 229.) indica esse fato. A diferença entre a delusão e a iluminação é como as quatro diferentes visões do bosque de árvores sal.2 Saibam que o Buda de Itinen Sanzen é toda pessoa dos Dez Estados que manifesta seu estado de Buda inerente. (END, vol. I, pág. 401-2.)]

Penso que possamos interpretar isso como a “Declaração de Direitos Humanos” de Nitiren Daishonin.

As pessoas vagando no mar de sofrimentos, assim como a estátua do Buda que apareceu no mar, são de fato entidades do Buda. Nós próprios somos Sakyamuni que atingiu a iluminação no remoto passado; um verdadeiro praticante do Sutra de Lótus reconhece isso. Daishonin diz que por meio da prática da Lei Mística podemos definitivamente alcançar um “estado de vida tão indestrutível quanto o diamante”.

Podemos alcançar o estado de vida da felicidade que brilha como diamante, solene e indestrutível sob todas as circunstâncias. E podemos fazê-lo nesta existência. O Sutra de Lótus existe para possibilitar a todas as pessoas alcançarem esse estado.

O “Buda que é uma pessoa comum” refere-se especificamente a Daishonin. Mas num sentido geral, também indica os seguidores de Daishonin unidos a ele em espírito. O “ensino de Itinen Sanzen exposto no Sutra de Lótus” é o ensino que proclama que todas as pessoas são budas.

Especificamente, é o Gohonzon — a incorporação real deste princípio de Itinen Sanzen — que possibilita a todas as pessoas tornarem-se budas. Quando baseamos ativamente nossas vidas no Gohonzon, a sabedoria e a vitalidade brotam, e entramos num ritmo de vitória total e completa.

Uma vez que o Gohonzon “está sempre aqui, ensinando a Lei”, pela recitação do Daimoku podemos, sob quaisquer circunstâncias, obter a sabedoria para sempre conhecer o curso apropriado de ação. Daishonin diz: “Quando os céus estão claros, tudo na terra está iluminado.” (END, vol. I, pág. 91.) Similarmente, quando o sol da sabedoria surge em nossas vidas, o correto caminho torna-se aparente.

“As pessoas deludidas” significam pessoas que, falhando em compreender isso, supõem que o “Buda” ou “Sakyamuni” seja um ser remoto e abstrato.


[O demônio que apareceu a Sessen Doji3 era Taishaku disfarçado. O pombo que procurou a proteção do rei Shibi era o deus Bishukatsuma4. O rei Fumyo5, que ficou aprisionado no castelo do rei Hanoku, era o próprio lorde Sakyamuni. Os olhos dos mortais comuns não podem vê-los em suas forças originais, mas os olhos do Buda podem. Conforme afirmado num sutra, o céu e o mar têm caminhos que os pássaros e os peixes seguem (embora não possamos vê-los). Uma estátua de madeira do Buda é, em si, de ouro, e uma estátua de ouro é de madeira. O ouro de Aniruda6 foi primeiramente visto como uma lebre, e depois como um cadáver. A areia transformou-se em ouro nas mãos de Mahanama.7 Isso se encontra além da capacidade de raciocínio humano. Um mortal comum é um Buda, e um Buda é um mortal comum. Isso é exatamente o que está indicado pelo Itinen Sanzen e pela frase “(o tempo é ilimitado e infinito) desde que atingi de fato o estado de Buda”.

Possivelmente, o senhor e sua esposa encontram-se aqui como reencarnações do lorde Buda Sakyamuni para auxiliar Nitiren. (END, vol. I, pág. 402-4.)]

Quando transformamos nosso estado de vida, nossa visão de tudo se altera. Visto pelos olhos dos mortais comuns, um mortal comum aparece simplesmente como um mortal comum, mas visto pelos olhos do Buda, as pessoas comuns, tal como são, são budas. Yassaburo e sua esposa apareceram aos olhos iluminados de Daishonin como reencarnações de Sakyamuni, o mestre dos ensinos.

Ao contrário da era atual, nos tempos de Daishonin as pessoas que caçavam ou pescavam para sobreviver eram consideradas como de baixa posição social. Daishonin considerava Yassaburo e sua esposa, que estavam envolvidos nesse tipo de trabalho, como budas; ele os elogia e os reverencia com as mãos unidas. Pelo senso comum do Japão do século XIII, isso seria impensável.

Um buda é uma pessoa que considera outras na mais elevada estima e a habilidade de fazê-lo é sua característica intrínseca. O Kossen-rufu significa promulgar essa atividade de respeito pelos seres humanos.

Quando Daishonin escreveu essa carta, ele era considerado um criminoso. Socialmente, ele estava na pior situação. No entanto, baseava-se no mais elevado estado de vida.

Ao contrário, as autoridades que perseguiam Daishonin e os reverendos malignos que se uniram contra ele poderiam muito bem pensar que ocupavam a mais alta posição. Mas eram pessoas que “desprezando toda a humanidade” (LS13, 193), de fato habitavam o mais baixo e o mais vergonhoso estado de vida.


[Embora a distância entre Ito e Kawana não seja grande, não é permitido nos comunicarmos livremente. Estou lhe escrevendo essa carta para servir como referência em uma data posterior. Não discuta esse assunto com outras pessoas; guarde-o para si. Se alguém souber, mesmo um pouco, deste assunto, o senhor se verá em dificuldades. Guarde-o no fundo do seu coração e jamais fale sobre ele. Felicidades. Nam-myoho-rengue-kyo.

Nitiren.


Vigésimo sétimo dia do sexto mês no primeiro ano de Kocho (1261).


A ser enviado a Funamori Yassaburo.

(END, vol. I, pág. 404.)]

Concluindo sua carta, Daishonin mostra uma grande preocupação pela situação de seus seguidores. Ito fica a uma curta distância de Kawana. Mas sob as circunstâncias em que se encontrava, Daishonin não poderia encorajá-los diretamente. Mesmo enviar uma carta era perigoso. A situação de Daishonin jamais havia sido tão rigorosa. Dessa forma, ele teve de fazer o mensageiro de Yassaburo esperar enquanto rapidamente escrevia a resposta.

Do início ao fim, cada linha da carta demonstra o senso de gratidão de Daishonin para com Yassaburo e sua esposa. Ele os louva consideravelmente, dizendo que certamente são praticantes do Sutra de Lótus. Ele os compara a seu próprio pai e mãe, aos deuses budistas e a reencarnações de Sakyamuni, o mestre dos ensinos.

Uma vez que mesmo o fato de eles haverem recebido uma carta de Daishonin poderia pô-los em perigo, este pede-lhes que “guarde-o no fundo de seu coração”, tão grande era sua preocupação.

É uma carta muito calorosa. A personalidade calorosa de Daishonin atraía as pessoas a ele. Eram provavelmente discípulos atraídos a Daishonin pela profundidade de seu pensamento e filosofia. E certamente havia muitos que se aproximavam do ensino budista pela transformação do próprio ensino que ele expunha isento de um senso de desesperança ou como se se agarrassem a algo desesperadamente. Mas o que mais atraía as pessoas a Daishonin era certamente sua profunda humanidade.

As pessoas que odiavam e tinham inveja de Daishonin não conseguiam entender isso. Para aqueles que desprezam os seres humanos, mesmo as ações da maior sinceridade empreendidas com respeito pelos outros, aparecem distorcidas. O estado do mundo hoje é tal que o egoísmo é tido como certo. Nesse ambiente, nós nos empenhamos para propagar o correto ensino budista e para encorajar os outros. Conduzimos o trabalho de budas e bodhisattvas.

À luz do Gosho, todos nós somos entidades do Buda “tão indestrutíveis quanto o diamante”. Estamos cuidando e encorajando os amigos com grande sinceridade, como se os abraçássemos com nossas próprias vidas. Por meio dessas ações contínuas, solidificamos a entidade do Buda em nossas vidas.

Como Walt Whitman8 diz: “Doravante não peço por fortuna. Eu próprio sou afortunado.”

A boa sorte não está longe. Nossas próprias vidas são entidades de boa sorte, entidades de felicidade tão indestrutíveis quanto o diamante. Isso é o que o Gosho proclama resolutamente.





1. Todas as citações do Sutra de Lótus são de The Lotus Sutra, Burton Watson trad. Nova York, Columbia University Press, 1993. Por conveniência, todas as citações dessa obra serão fornecidas no texto e abreviadas da seguinte forma: LS seguido do número do capítulo e do número da página. 2. O bosque de árvores sal foi onde Sakyamuni expôs seu último ensino, o Sutra do Nirvana, e faleceu. O Sutra Zobo Ketsugui define o bosque de árvores sal em quatro formas diferentes, de acordo com a capacidade e estado de vida dos mortais comuns, as pessoas dos dois veículos, bodhisattvas e o Buda. 3. O nome de Sakyamuni numa vida anterior. A fim de testar o espírito de procura de Sessen Doji, o deus Taishaku apareceu diante dele na forma de um demônio faminto. 4. Quando Sakyamuni praticou austeridades numa existência anterior como o Rei Shibi, Taishaku, para testar sua sinceridade, assumiu a forma de uma águia, e Bishukatsuma, que servia Taishaku, a forma de um pombo. A fim de salvar o pombo, Shibi deu sua vida, oferecendo sua carne à águia faminta. 5. Rei Fumyo foi o nome de Sakyamuni numa existência anterior quando ele se engajou na prática de observar os preceitos. Capturado pelo Rei Hansoku, Fumyo quase foi executado. Lamentando que ele havia prometido oferecimentos a certo monge, mas que teria de quebrar sua promessa, ele recebeu um perdão por sete dias. Fumyo retornou então ao seu país, deu oferecimentos ao monge e transferiu seu trono ao seu filho. Após proclamar que manter uma promessa era o mais importante dos preceitos, ele retornou ao seu captor. Hansoku ficou tão impressionado pela sinceridade de Fumyo que ele o libertou e converteu-se ao budismo. 6. Aniruda era um dos dez maiores discípulos de Sakyamuni, conhecido como o mais notável no discernimento divino. Essa história encontra-se no Hokke mongu. 7. Mahanama foi um dos cinco monges que foi ordenado pelo pai de Sakyamuni, o rei, a acompanhar Sakyamuni quando ele abandonou a vida secular e entrou para a vida religiosa. De acordo com o sutra Zoichi-agon, diz-se que Mahanama possuía poderes ocultos. A história da “areia em sua palma transformando-se em ouro” é encontrada no Tendai sandaibu hochu de Ts’ung-i. 8. Walt Whitman, “Song of the open road”, Leaves of Grass. Nova York, Everyman’s Library, 1968, pág. 125

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