"Quando sua determinação muda, tudo o mais começa a se mover

em direção ao seu desejo".

24 de jan de 2009

Jeanny Chen - A prática budista muda o destino, os traumas eos sofrimentos em felicidade



(publicado na Revista "Living Buddhism" (SGI-USA) de Março de 2.002)
Por Jeanny Chen, Saratoga, California.
Disponível em http://www.happyjeanny.com

O que posso lembrar da minha infância em Taiwan, é que minha família estava constantemente mudando-se de uma cidade para outra para fugir dos credores e começar de novo. Como resultado dos reiterados fracassos nos negócios do meu pai, suas instalações e nossos pertences eram freqüentemente colocadas sob custódia legal por ordem dos tribunais. As vezes voltávamos para casa e encontrávamos a porta lacrada pela justiça, proibindo-nos a entrada.
Antes de que pudéssemos encontrar uma forma de fugir dos credores, meus pais usualmente escondiam toda a família num quarto alugado, apagavam as luzes e nos mantinham quietos dia e noite. Até hoje, permanece tão vívida na minha memória a imagem dos credores batendo na porta ferozmente, exigindo-nos que abríssemos para que pudessem confiscar o que restava ou agindo violentamente contra nós.
Minha mãe trabalhou tão duramente para manter o negócio do meu pai funcionando, que apenas aparecia em casa. Quando tinha treze anos, ela também foi presa durante um ano e meio: meu pai tinha usado seu nome para dirigir seu negocio falido e tinha soltado cheques sem fundos.Antes de eu nascer e durante minha vida, meu pai teve outra mulher.Era comum em Taiwan nessa época que os homens tivessem acompanhantes femininas fora do casamento. Meus irmãos e eu ficávamos a mercê da tirania desta mulher durante a ausência da minha mãe, especialmente quando esteve na prisão.
Minha família deve ter mudado vinte vezes durante minha infância. Fui colocada em quatro lares substitutos durante a época do colégio. Tive que mudar de uma escola para outra muitas vezes. Nunca fiz grandes amizades. Sou a do meio entre oito irmãos, a mais insignificante e desprotegida. Era o patinho feio que sempre estava triste. Não odiava meus pais pelos seus fracassos, mas tinha uma enorme pergunta: Por quê eu? Por quê minha família? Os empregados do meu pai várias vezes malgastava substanciais quantias de dinheiro. Muitos dos seus clientes se declaravam em bancarrota por sua culpa. Quem era responsável por tal intrincada rede? Também me preocupava tremendamente não poder fazer nada para proteger minha mãe das relações do meu pai com suas amantes.
Uma das minhas professoras primárias declarou que eu era muito cínica e ressentida, após eu ter escrito uma autobiografia de vinte páginas (outros estudantes entregaram uma ou duas páginas). Outra professora odiava minha cadavérica aparência. Comentou que eu não tinha nenhuma chance de progredir. Isso doía. Sei o motivo pelo qual meus professores me desprezavam: sob a sombra da minha situação familiar, tinha-me resignado ao meu destino ainda criança. Era pessimista, teimosa, taciturna, insensível, nervosa, irascível e ansiosa. Não tinha esperanças, coragem, sonhos e nem sequer lágrimas, se quisesse chorar. Não podia fazer nada além de seguir os altos e baixos da minha débil vida.
Estava pronta para aceitar o mínimo e o pior. Procurava respostas com adivinhos, só para descobrir mais razões para ser pessimista. Tentava fugir da realidade sonhando toda vez que podia.
Como resultado disso ia mal na escola. Finalmente pedi autorização para ausentar-me no meu primeiro ano universitário e fiquei em casa sem fazer nada. Não podia suportar como meus pais tinham que lidar com semelhante caos superando uma crise após outra sem fim. Isto afetou minha condição física, o que converteu-se na minha desculpa para suspender minha educação.
Apesar de tal miserável infância e adolescência, no meu último ano universitário tive a grandiosa boa sorte de conhecer Raymond, um homem incrível que logo converteu-se no meu amado marido. Proporcionou-me tão excepcional e pacífico abrigo, que fui capaz de deixar os problemas da minha própria família para trás por um tempo. Meu doce casamento, porém, não marcou o fim dos meus sofrimentos.
Raymond me amava e nutria com todo o amor, cuidado e atenção que eu pudesse desejar. Mas mesmo assim, bem lá dentro, era infeliz, cínica e cheia de ansiedade. Estava preparada para dar-me por vencida a qualquer momento. Não podia apreciar a beleza da vida ou da arte. Não tinha passatempos nem desenvolvia interesse por nada. Sentia-me triste porque meu esposo tinha casado com uma pessoa insuportavelmente insulsa. Meus pais continuaram lutando contra seu obstinado carma e meu coração não encontrava paz, por não ter a capacidade de ajudá-los. Não havia solução.
Não foi até pouco tempo atrás, depois de ter estado praticando o Budismo durante dez anos, que reparei no verdadeiro aspecto do meu carma de sofrimento. Nitiren Daishonin, citando o Sutra Hatsunaion-kyo, na sua "Carta de Sado" afirma:
"Os senhores de fé devota, desde que cometeram inumeráveis pecados formando vários maus carmas no passado, sofrerão pela retribuição de todas essas ações. Serão menosprezados, terão uma aparência feia, faltar-lhe-ão comida e roupa, em vão procurarão saúde, nascerão numa pobre e herética família ou sofrerão as perseguições de imperadores".
Ademais diz:
"É pelo benefício de abraçar a Lei que uma pessoa pode diminuir a retribuição de sofrimentos como um homem". (END, vol. 1, pág. 203)
Nitiren Daishonin me ensina que cada pessoa que encontro, tudo o que me acontece e as diferentes condições que rodeiam minha vida, são a exata manifestação do meu carma. De acordo com este ensinamento, tenho criado o carma negativo no passado, e o levarei existência após existência a não ser que o transforme mediante minha prática da Lei Mística. A mesma escritura deixa claro que tenho feito coisas similares a outras pessoas em existências anteriores, portanto todos os efeitos estavam chegando-me nesta existência. A causa mais séria que cometi foi minha passada calúnia à Lei Mística.
Superficialmente, sofri porque tinha nascido com um pai que não cumpria com minha mãe, e que negava-se a ser derrotado, mesmo quando nunca tinha sucesso na sua carreira. Sofria porque tinha uma mãe que, apesar da sua diligência e virtudes, estava firmemente presa pela união do seu destino com o do meu pai. Sofria porque meus irmãos e eu éramos maltratados por outra mulher, e assim sucessivamente.
O verdadeiro aspecto desses fenômenos, porém, é que eram meu próprio carma. Precisava que essas pessoas desempenhassem seus respectivos papéis no drama da minha vida. Este não tinha acabado, eu tinha sido incapaz de mudá-lo. Mesmo se pudesse mudar todo o elenco, os novos atores ainda atuariam de acordo com o que estava escrito no roteiro do meu carma. Minha vida ainda seria a mesma. Se tivesse um carma positivo, durante minha infância o drama do meu carma teria um elenco que levaria vidas amavelmente para prover-me de um ambiente feliz e confortável.
Evidentemente, as pessoas na minha vida tinham seu próprio carma, mas eles não eram culpados pelo meu carma e meu destino. Nem sequer tinha que perdoá-los.
Eu era totalmente responsável por qualquer coisa pela que tivesse que passar.
Por aceitar a responsabilidade da minha própria vida, podia livremente transformá-la sem depender dos outros. Quando consegui ver a verdade fundamental deste fenômeno que me causava sofrimento, minha vida abriu-se. Meus amargos sentimentos de ser desafortunada, maltratada, inferior e de sentir-me presa, desapareceram.
Quando percebi isto, imediatamente fui recitar Daimoku na frente do Gohonzon. Dou valor a meus pais por suas vidas de incessante luta, já que serviram como um catalisador para manifestar meu carma negativo. Sou grata porque recitar Nam-myoho-rengue-kyo me põe no caminho correto e em perfeita harmonia com o ritmo do universo. De acordo com o que Daishonin escreve no Gosho "A Transformação do carma determinado":
"Devido ao fato de que até mesmo o carma determinado pode ser erradicado através do completo e genuíno arrependimento, é desnecessário dizer que o carma indeterminado pode também ser totalmente transformado". (END, vol. 1, pág. 215).
Desculpei-me perante o Gohonzon pelas minhas calúnias passadas e causas negativas e jurei não cometer nenhuma outra ofensa desde então. Em vez disso, me esforçaria em proteger a Lei Mística e criar causas positivas sob qualquer circunstância. Também orei para rodear-me de boas influências e afastar-me das más influências ou ainda melhor, trocá-las por boas.
Senti que orando sinceramente para erradicar meu carma, estava liberando meus pais da sua missão de mostrar o carma negativo da minha vida. Desde então, eles não tinham que sofrer pela parte do seu carma que estivesse ligada comigo.
Mediante minha fé, prática e estudo da Lei Mística tenho cumprido muitos objetivos e também tenho mudado meu carma. Como resultado disto, meu marido e eu podemos manter meus pais e dar-lhes uma vida confortável.Faz três anos, à idade de 72 anos, meu pai ainda era um lutador, mas seu tempo estava acabando-se. Estava tão profundamente assustado que começou a sofrer de insônia, e nem os remédios para dormir puderam ajudá-lo. Nunca antes tinha procurado ajuda religiosa, mas quando lhe fiz conhecer o Budismo de Nitiren Daishonin, imediatamente o abraçou.
Acredito que mudando meu próprio carma, fui capaz de ajudar meu pai a mudar o seu. Agora ele recita Nam-myoho-rengue-kyo e deixou completamente para trás seus pesares e dor. Desfruta sua vida como nunca antes. Minha mãe, duas irmãs e um irmão também estão orando Nam-myoho-rengue-kyo.
A escritura de Nitiren Daishonin "Wu-lung e I-lung" declara:
"O Sutra de Lótus é completamente diferente. Uma mão que o segura imediatamente atinge a iluminação, e uma boca que o recita instantaneamente entra no estado de Buda". (END, vol. 4, 295)
O que pode ser mais poderoso que usar o Sutra de Lótus para erradicar o carma da minha família?
Quando comecei a compartilhar minha experiência com outros, descobri que para muitos, o sofrimento do seu carma freqüentemente convertia-se em traumas para toda a vida. Eram adictos, depressivos, ressentidos, estavam profundamente feridos e as vezes eram suicidas. Careciam de confiança e autoestima. Dói-me muitíssimo saber que as pessoas sofrem mais severamente do que posso imaginar e que não podem evitar anular-se a si mesmos.
Um dia, quando estava lendo o capítulo dez do Sutra de Lótus, "Mestre da Lei" (Hosshi), um parágrafo chamou minha atenção:
"O senhor [Rei da Medicina] deve entender que estas pessoas são grandes bodhisattvas que têm triunfado em obter o anuttara-samyak sambodhi (a suprema e perfeita iluminação). Compadecendo-se dos seres humanos, juraram nascer entre eles onde pudessem amplamente expor e fazer sobressair o Sutra de Lótus da maravilhosa Lei Mística. O quanto mais é verdade, então, para aqueles que abraçam o sutra inteiro e lhe brindam diversos tipos de oferendas!". (pág. 161)
Esta era a resposta documental que tinha andado procurando! Sentindo-me emocionada, recitei Daimoku durante três dias para entender completamente e absorver seu significado.
Compreendi que, como um dos Bodhisattvas da Terra, minha missão é propagar a Lei Mística durante os Últimos Dias da Lei e levar felicidade a todos os seres humanos. De acordo com o capítulo quinze do Sutra de Lótus "Emergindo da Terra", os Bodhisattvas da Terra tinham a sabedoria do Buda de incontáveis aeons, e todos foram ensinados e convertidos pelo Buda Sakyamuni antes da Cerimônia do Ar acontecer.
O segundo presidente da Soka Gakkai, Jossei Toda, explica que todos nós estávamos presentes na cerimônia. O Buda Sakyamuni nos confiou, junto a outros incontáveis Bodhisattvas da Terra, "aceitar, apoiar, ler, recitar e propagar amplamente a Lei Mística, fazer com que os seres humanos em todos os cantos a escutem e a entendam... e fazer que seus benefícios se difundam amplamente. Pela nossa benevolência para com todos os seres humanos, voluntariamente renunciamos ao benefício para nós e tomamos esta missão. Cada um de nós deliberadamente criamos nosso carma para nascer no mundo saha, num ambiente com as condições que escolhemos por própria vontade. Nascemos com nosso respectivo carma de sofrimento. Este sofrimento se converte no nosso ímpeto para procurar a solução. Sob tais circunstâncias, somos capazes de aproveitar nosso sofrimento e praticar a Lei Mística.
Graças a Nitiren Daishonin, ao presidente Ikeda e à Soka Gakkai, temos o Gohonzon e podemos seguir os ensinamentos corretos. Mediante nossa prática diligente dia a dia, polimos nossas vidas e fazemos emergir com sabedoria e energia vital, nosso estado de buda inerente. Como resultado, podemos superar as dificuldades, mudar nosso carma, mostrar a prova real, ser confiáveis e aprofundar nossa fé. Assim conseguimos ser capazes de demonstrar a grandiosidade da Lei Mística e propagá-la.
O ideograma chinês para a palavra missão significa "usar a própria vida".
Posso usar meu sofrimento físico ou mental na minha vida para transformar veneno em remédio e para compartilhar minha experiência incentivando outras pessoas. Posso devotar toda minha vida para criar meus filhos para que sejam líderes na sociedade.
Posso lançar-me para estabelecer uma carreira de sucesso para apoiar financeiramente a paz mundial. Posso contribuir com meu tempo, energia, corpo, cérebro, e até minhas posses pessoais, quando e quanto for necessário, ou ainda dedicar-me a uma prática sincera com o propósito de incluir uma prova real a mais na validade do Budismo de Nitiren Daishonin. Se tenho que fazer um caminho doloroso, caminhar um escarpado sendeiro ou uma rota excitante, é exatamente tal como minha missão de Bodhisattva da Terra está designada a revelar-se. É a nobre missão que assumi. É o propósito e o significado de usar minha vida em prol da Lei.
O Presidente Ikeda declara nas Seletas Preleções sobre o Gosho:
"O budista descobre a verdade na própria realidade; descobre a verdade fundamental observando constante e cuidadosamente o homem e as coisas ao seu redor. "O verdadeiro aspecto de todos os fenômenos" é, portanto uma filosofia que enxerga o aspecto real de cada realidade no universo, especialmente na vida humana". (vol. 1, pág. 20)
Não é verdade que todos meus anos de dificuldades foram parte essencial de ser um Bodhisattva da Terra? Não são todos os residuais aspectos negativos, efeitos da minha problemática vida, a qual todavia me afeta e me afunda muito após minhas circunstancias mudaram? Não estão também incluídas nesse mesmo pacote? Se continuo sofrendo as conseqüências do meu carma, uma vez que acordo à minha verdadeira entidade, continuo obstinada com o sofrimento e o perpetuo por minha própria escolha? Sou uma pessoa que aferra-se firmemente ao seu carma e seus traumas sem querer deixá-los ir?
No mesmo discurso o Presidente Ikeda diz:
Sem compreender a lei da gravidade, somente vemos uma maçã amadurecendo e caindo ao chão... Mas não pode aplicá-lo a nada, se primeiro não o identifica e o analisa. Também então, saber a respeito da lei da gravidade e não fazer nada com esse conhecimento pode ser um grande desperdiço. Somente quando traduzimos este conhecimento em algo de uso prático como criar um aeroplano, uma nave espacial ou algo mais de valor para o homem, podemos desfrutar os benefícios do conhecimento que temos adquirido da lei da gravidade". (pág. 21)
Depois de ler sua orientação, decidi recitar Daimoku e fazer emergir mais sabedoria para seguir sua orientação e cumpri-la cem por cento.
Se não fosse pelo meu sofrimento do passado, não teria a energia vital para descobrir a resposta aos meus infortúnios. Levou-me a abraçar profundamente a Lei Mística, o que é vital para desenvolver a capacidade de cumprir minha missão. Além das cicatrizes, meu sofrimento deixou alguns presentes também: permitiu forjar-me como uma pessoa resistente, madura, disciplinada e diligente com um coração bondoso. Todos os anos da minha estressante vida me deixaram o bem mais valioso e insubstituível: os atributos da criação de valor. O lótus cresce no pântano sem ser contaminado. A "Carta de Sado" também diz:
"Diz-se que se uma pessoa bate o ferro vermelho, isso fará uma boa espada. Da mesma maneira, uma pessoa pode testar sábios e santos denunciando-os". (END, vol. 1, págs. 200-201)
Outras pessoas podem ter tido vidas fáceis e confortáveis, mas sem o mesmo tipo de inapreciáveis experiências que agora eu entesouro. Não trocaria minha vida com ninguém. Tudo faz parte do trato que, tão benevolente e alegremente, reconheci e proclamei como meu durante a Cerimônia do Ar na presença do Buda Sakyamuni. Agora entendo totalmente a razão pela qual tinha que atravessar por todas essas adversidades.
Que afortunada sou por ter meu grandioso mestre, o Presidente Ikeda, para mostrar-me com seu exemplo como usar minha vida para criar imenso valor para o mundo inteiro! Quando penso na minha missão e no meu próprio destino ao qual aspiro agora reescrever, meu coração pulsa com grande excitação e se enche de imensurável apreço. Constantemente procuro as ilimitadas oportunidades que estão diante de mim para cumprir minha missão.
Desta maneira, o Budismo de Nitiren Daishonin, o Budismo da verdadeira causa, me ajudou a liberar-me dos meus apegos do passado. Sou tão feliz como posso ser. Cada momento é o momento perfeito para começar uma vida completamente nova.
Para finalizar, gostaria citar o Presidente Ikeda nas Seletas Preleções do Gosho:
"Temos atravessado um interminável ciclo de vida e morte envolvidos em uma fundamental ignorância, como pessoas que andam tateando no seu caminho pela escuridão. Afortunadamente, nesta vida fomos capazes de encontrar a Lei Mística e conhecer o Buda Original do remoto passado... É a única oportunidade na vida para possibilitar-nos viver uma vida feliz e segura, livre e incorruptível, passeando num jardim de flores, sob o brilhante sol da Lei Mística e o céu cristalino da iluminação eterna". (pág. 59)


O endereço eletrônico de Jeanny é: happyjeanny@hotmail.com
Tradução: Ariel Ricci aricci@estadao.com.br
Revisão: Marly Contesini contesini@estadao.com.br
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