"Quando sua determinação muda, tudo o mais começa a se mover

em direção ao seu desejo".

3 de jan de 2009

GOSHO - Uma Admoestação Contra o Apego ao Feudo

(Shijo Kingo Dono Gohenji – págs.1163 a 1164)

A sua carta, datada do dia vinte e cinco do mês passado, chegou na Hora do Galo (5:00-7:00) do dia vinte e sete do mesmo mês. Lendo a carta oficial de seu lorde (ordenando que o senhor se submetesse a um juramento escrito renunciando a sua fé no Sutra de Lótus) e a sua própria promessa de não escrever tal juramento, sinto que a sua determinação é algo tão raro quanto ver a planta udumbara florida é tão admirável quanto a fragrância do sândalo vermelho germinante.
Shariputra, Maudgalyalyana e Mahakashyapa foram grandes arhats que conquistaram os três discernimentos e os seis poderes sobrenaturais. Além disso, eles foram bodhisattvas que, através de ouvir o Sutra de Lótus, atingiram o primeiro estágio de desenvolvimento e o primeiro estágio de segurança, alcançando a percepção do não-nascimento e não-extinção. Entretanto, até mesmo essas pessoas consideravam-se incapazes para suportar as grandes perseguições que acompanham a propagação do Sutra de Lótus no mundo saha durante os Últimos Dias da Lei, e recusaram-se a aceitar a tarefa. Como, então, poderia um mortal comum nos Últimos Dias da Lei, que ainda não erradicou as três categorias de ilusão, tornar-se um devoto deste sutra?
Embora, eu, Nitiren, possa ter sido capaz de resistir a ataques de varas e bastões, telhas e pedras, a difamação e perseguição pelo soberano, como poderiam os praticantes leigos, que possuem esposas e filhos e são ignorantes do Budismo, fazer o mesmo ? Talvez teria sido melhor que eles nunca tivessem abraçado a fé no Sutra de Lótus em primeiro lugar. Se eles mostrarem-se incapazes de sustentar a fé até o fim, mantendo-a somente por um curto tempo, serão zombados pelos outros. Pensando deste modo, senti pena do senhor. No entanto, no decorrer das repetidas perseguições que sofri, bem como durante as duas sentenças de exílio a mim atribuídas, o senhor demonstrou resolução inabalável. Isto apenas já foi magnífico o bastante. Porém, agora, apesar das ameaças de seu lorde, o senhor escreveui um juramento de prosseguir com a sua fé no Sutra de Lótus mesmo ao custo de seus dois feudos. Não consigo encontrar palavras suficientes para louvá-lo.
O Buda duvidou que até mesmo os Bodhisattvas Fuguen e Monju pudessem empreender a propagação do Sutra de Lótus na era posterior a ele. Portanto, confiou os cinco caracteres do Myoho-rengue-kyo a Jogyo e a outros líderes dos incontáveis Bodhisattvas da Terra. Agora, ponderando o significado desse acontecimento, pergunto-me se o Bodhisattva Jogyo poderia ter alojado-se em seu corpo com o intuito de auxiliar a mim, Nitiren. Ou, talvez, isto possa ser o desígnio benevolente do senhor Buda Sakyamuni.
O fato de os subordinados de seu lorde (que ressentem-se do senhor) estarem tornando-se ainda mais presunçosos, certamente deve ser obra de Ryokan e Ryuzo. Se escrever um juramento descartando-se de sua fé, essa multidão não apenas se tornará mais arrogante do que antes, mas com certeza, também mencionarão o fato a todos que encontrarem. Então, todos os meus discípulos em Kamakura serão acossados até não restar nenhum.
Faz parte da natureza dos mortais comuns não saber o que os aguarda no futuro. Aqueles que têm boa ciência do assunto são chamados sumidades ou sábios. Omitindo exemplos do passado, citarei um do presente. O Lorde Hojo Yoshimasa renunciou aos seus dois domínios e tornou-se um sacerdote leigo. Soube que, no final, ele abandonou todas as suas muitas propriedades, deixou seus filhos e filhas e também sua esposa e isolou-se do mundo. O senhor não possui nem filhos nem irmãos com quem possa contar. Os seus dois feudos são tudo o que possui. Esta vida é como um sonho. A pessoa não sabe nem se estará viva amanhã. Mesmo que o senhor se torne o mais miserável dos mendigos, jamais desonre o Sutra de Lótus. Como de qualquer forma a vida é breve, o senhor não deve chorar por causa do seu destino. Como o senhor mesmo escreveu em sua carta, deve agir e falar sem o mínimo servilismo. Adulação ou lisonja somente lhe causarão maiores danos. Mesmo que os seus feudos sejam confiscados ou que o senhor próprio seja expulso, pense que isso se deva à ação das Dez Deusas, e confie-se a elas.
Não tivesse eu, Nitiren, sido exilado e tivesse permanecido em Kamakura, certamente teria sido morto na batalha. De maneira análoga, como o fato de continuar a serviço de seu lorde poderia vir a ser prejudicial ao senhor, o Buda Sakyamuni pode muito bem ter projetado os acontecimentos (de forma que seja forçado a partir).
Escrevi uma petição em seu favor. Há vários sacerdotes (que são meus discípulos em Kamakura), mas como eles são muito pouco confiáveis, estava pensando em enviar-lhe Sanmi-bo. Contudo, como ele ainda não se recuperou de sua doença, estou mandando-lhe este outro sacerdote no lugar dele. Peça a Daigaku Saburo, Taki no Taro ou ao Lorde Toki, que faça uma cópia esmerada da petição quanto tiver tempo, e apresente-a ao seu lorde. Se puder fazer isto, esse seu problema será resolvido. O senhor não precisa apressar-se muito. Ao invés disso, deve unir-se solidamente aos seus companheiros na fé. Quanto aos outros, deixe-os gritar contra o senhor o quanto quiserem. Então, se conseguir submeter a petição, a notícia sobre a mesma se espalhará por toda Kamakura e talvez alcance até o próprio regente. Isto significará o infortúnio transformando-se em boa sorte.
Explanei-lhe os ensinos do Sutra de Lótus há algum tempo. Questões de consequências menores surgem do bem, mas uma questão de grande significado seguramente indica que a desgraça se transformará em imensa boa sorte. Se as pessoas lerem esta petição, os inimigos do Budismo serão revelados. O senhor tem apenas que afirmar de forma breve: "Não pretendo deixar o clã de meu lorde e devolver o meu feudo por espontânea vontade. Entretanto, se o meu lorde confiscá-lo, considerarei isto como um oferecimento ao Sutra de Lótus e um ensejo para alegrar-me". Diga isto num tom mordaz.
O senhor não deve de modo algum portar-se de maneira servil em relação ao magistrado. Diga-lhe: "Este meu feudo não é algo que o meu lorde tenha concedido-me por qualquer motivo comum. Ele conferiu-o a mim porque salvei a sua vida com o remédio do Sutra de Lótus, quando ficou gravemente doente. Se ele tomá-lo de mim, a doença dele seguramente voltará. Nessa ocasião, mesmo que ele peça desculpas a mim, Yorimoto, não as aceitarei". Tendo feito uso de suas palavras, despeça-se de uma maneira abrupta.
Sob nenhuma circunstância, não deve comparecer a quaisquer reuniões. Mantenha estrita guarda à noite. Tenha boas relações com os vigias noturnos e solicite o auxílio deles. O senhor deve estar sempre acompanhado deles. Se não for desapossado desta vez, as possibilidades são de nove contra uma de que os seus colegas samurais realizem um atentado contra a sua vida. Haja o que houver, não morra vergonhosamente.
Nitiren,
No sétimo mês do terceiro ano de Kenji (1277), no signo cíclico de hinoto-ushi

Fundo de Cena

Nitiren Daishonin escreveu esta carta no Monte Minobu, em julho de 1277, quando estava com 56 anos de idade, a Shijo Kingo, um de seus seguidores mais devotados, em Kamakura. O nome completo e título de Shijo Kingo eram Shijo Nakatsukasa Saburo Zaemon-no-jo Yorimoto, sendo Kingo um equivalente do título Saburo Zaemon-no-jo. Ele servia à família Ema, uma ramificação do clã dominante, Hojo, e era bem versado tanto na medicina como nas artes marciais.
À medida qe os seguidores leigos de Nitiren Daishonin intensificavam suas atividades de propagação, passaram a encontrar várias dificuldades e perseguições. Por volta de 1274, após Nitiren Daishonin retornar do exílio à Ilha de Sado e retirar-se para o Monte Minobu, Shijo Kingo tentou apresentar os ensinos de Nitiren Daishonin ao seu lorde, Ema Tikatoki, um seguidor do sacerdote Ryokan do Templo Gokuraku-ji. O lorde Ema não acolheu cordialmente a crença de seu subordinado no Sutra de Lótus e atormentou-o de várias formas. Num certo momento, incitado pelos comentários caluniosos dos colegas samurais de Kingo, o Lorde Ema ameaçou reduzir o seu feudo e até mesmo transferí-lo à remota província de Etigo, caso ele não renunciasse a sua fé.
Em junho de 1277, Shijo Kingo casualmente compareceu a um debate religioso em Kuwagayatsu, em Kamakura, no qual Sanmi-bo, um discípulo de Nitiren Daishonin, derrotou o sacerdote Ryuzo-bo, um protegido de Ryokan. Os outros subordinados do Lorde Ema, invejosos de Kingo, viram no acontecimento uma oportunidade para prejudicá-lo e relataram mentirosamente que ele havia tumultuado forçosamente o debate. Isto despertou a ira do Lorde Ema e ele expressou a ameaça de confiscar o feudo de Kingo.
Nessa conjuntura, Nitiren Daishonin escreveu uma petição ao Lorde Ema, em nome do samurai, e enviou-a a Kingo para ser submetida numa ocasião favorável. Esta foi a ‘Carta de Petição de Yorimoto’. Logo depois, o Lorde Ema ficou doente. Finalmente, ele não teve escolha senão pedir ajuda a Shijo Kingo. Ele recuperou-se com tratamento de Kingo, e depois disso, depositou renovada confiança nele. Posteriormente, Shijo Kingo, obteve dele uma propriedade três vezes maior do que a anterior.
Quando Shijo Kingo recebeu uma carta oficial do Lorde Ema, após o Debate de Kuwagayatsu, ordenando-lhe que escrevesse um juramento desertando de sua fé no Sutra de Lótus, ele mandou a carta a Nitiren Daishonin em Minobu, juntamente com uma carta de sua autoria, na qual prometia jamais escrever tal juramento. O presente gosho, foi uma das respostas de Nitiren Daishonin. Embora breve, está repleta de orientações e incentivos para Shijo Kingo em meio às suas adversidades. No início desta carta, Nitiren Daishonin elogia a firme determinação de Shijo Kingo ao jurar dar prosseguimento à sua fé a despeito das ameaças do seu lorde. Afirmando: "Mesmo que o senhor se torne o mais miserável dos mendigos, jamais desonre o Sutra de Lótus" – ele define uma atitude básica na fé. Não obstante qual possa ser a posição social ou que adversidade possa encontrar, é de vital importância dar continuidade à fé, sem nunca perder a integridade como um devoto do Sutra de Lótus.

As mais Belas Histórias Budistas - As Escrituras de Nitiren Daishonin
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