"Quando sua determinação muda, tudo o mais começa a se mover

em direção ao seu desejo".

4 de jan de 2009

GOHONZON

O Objeto de DevoçãoGohonzon – Seu Significado, Palavras e Imagem

Um das questões de maior debate, quando se diz respeito a qualquer objeto religioso, é se este é sagrado ou representa o sagrado. Ou seja, se o objeto é uma real incorporação ou um símbolo do que é para ser reverenciado como adoração ? Estas questões sobre a natureza dos objetos religiosos têm desempenhado um papel importante na história da religião.
A Controvérsia Iconoclástica, na qual os cristãos debateram os méritos dos ícones religiosos, é considerada o passo final que levou ao cisma entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa Grega em 1054.
A interpretação da Eucaristia – o pão e vinho consagrados e utilizados na Comunhão Sagrada – tem sido uma outra fonte de disputas doutrinárias na Igreja Cristã, desde o início da Idade Média, especialmente durante o período da Reforma. Na décima-terceira sessão do Conselho de Trent, realizado em 1551, a Igreja Católica Romana reafirmou sua doutrina de transubstanciação, declarando a transformação de todas as substâncias presentes no pão e no vinho, no Corpo e Sangue de Cristo, e que somente a aparência do pão e do vinho permanecem após a consagração.
Os protestantes se opuseram a esta visão. Por exemplo, Lutero proclamou que após a consagração, as substâncias, tanto o Corpo e o Sangue de Cristo, como o pão e o vinho, coexistiam em união. Além disso, Ulrich Zwingli, afirmou que a Última Ceia foi inicialmente um ritual memorial e que não houve nenhuma mudança em nenhum dos elementos.
Como é evidente na história do Cristianismo, o objeto religioso geralmente despertam tensão e ansiedade para aqueles que acreditam que o divino está além da expressão material. Ao mesmo tempo, as pessoas buscam algo tangível como objeto ou expressão de sua fé. Algumas pessoas consideram um sinal divino como a própria divindade, enquanto outros reduzem o significado do objeto sagrado para um símbolo ritual destituído de sua própria espiritualidade. Deste modo, a natureza do objeto religioso está geralmente no centro do debate teológico e na confusão existente em diversos movimentos religiosos.
O Gohonzon é um Símbolo ou a própria Incorporação ?
No caso do Budismo de Nitiren, seu objeto de devoção representa tanto o símbolo como a incorporação. Quando as pessoas olham para o Gohonzon pela primeira vez, o que enxergam ? No que o transformam ? É um pergaminho com inscrições desconhecidas, mas que representa um ícone religioso ou fórmula sagrada ? Qualquer que seja a reação, é difícil de perceber os caracteres orientais arranjados num padrão específico – embora, muitos não tenham a menor idéia do que estes caracteres significam ou a razão deles estarem posicionados desta forma. Como a nossa primeira impressão revela alguns pontos importantes com respeito ao seu significado, o ato de percebemos inicialmente os caracteres escritos e o seu arranjo gráfico, nos proporciona algumas pistas da intenção de Nitiren em criar este objeto de devoção.
Em resumo, o Gohonzon representa a iluminação de Nitiren, assim como, o nosso inato estado de Buda. O Gohonzon é um símbolo do estado de Buda potencial de toda a humanidade, significa algo além do que si próprio. Esta é a razão para que Daishonin explanasse para o seu idoso discípulo Abutsu-bo, o significado do seu oferecimento ao Gohonzon – na qual é referido como a Torre do Tesouro – como se segue: “Você pode pensar que está oferecendo presentes para a Torre do Tesouro do, mas não. O senhor está oferecendo para si mesmo. O senhor é o próprio que é originalmente iluminado”. Aqui, Nitiren explica que quando oramos ao Gohonzon, este reflete a nossa própria natureza de Buda inata. O Gohonzon reflete nossa reverência em direção ao supremo potencial interior. Neste sentido, o Gohonzon funciona como um direcionador para o estado de Buda, sendo esta, uma representação simbólica. Entretanto, na passagem acima, Daishonin nos adverte para não confundir a manifestação com o manifesto, na qual materializa e externaliza o estado de Buda que existe dentro de cada um de nós.
Todavia, sob outro prisma, o Gohonzon age como uma incorporação da iluminação de Daishonin. O Gohonzon não é uma entidade viva, auto-consciente e que de forma intrínseca incorpora a iluminação de Nitiren, mas age em nossa prática como se fosse. Como ele cita: “Eu, Nitiren, escrevi minha vida em tinta sumi, assim creia no Gohonzon com todo o seu coração. O desejo do Buda é o Sutra de Lótus, mas o espírito de Nitiren não é outro que o Nam-myoho-rengue-kyo”. Quando nos depositamos nossa fé no Gohonzon e oramos imbuídos com o mesmo espírito descrito nesta passagem, o Gohonzon se transforma de um simples papel escrito em uma concreta manifestação da iluminação de Nitiren na realidade de nossa consciência. Logo, o Gohonzon funciona como um estímulo externo que desperta o nosso potencial interior para o estado de Buda. De um lado, nós compreendemos que o Gohonzon é uma representação simbólica de nossa natureza de Buda. De outro lado, em nossa prática, nós oramos como se o Gohonzon fosse a incorporação real da vida iluminada de Nitiren e desta forma, podemos obter a confiança de que a mesma natureza existe em nossas próprias vidas. O ato de observar o Gohonzon como a incorporação da iluminação de Nitiren não é meramente uma crença simplista, pois, embora o Gohonzon permaneça fisicamente como papel e tinta; este é a afirmação de nossa crença na iluminação de Nitiren e em nosso próprio potencial iluminado. Neste sentido, o Gohonzon atua no papel do ausente Nitiren, como um exemplo concreto de atingir a iluminação.
Desta forma, o Gohonzon atua em nossa prática tanto como um símbolo e como a incorporação do estado de Buda. Entretanto, deve ser notado que o Gohonzon como a incorporação da iluminação não deve ser encarado como uma presença misteriosa do divino em um objeto inanimado. O Gohonzon somente se torna a incorporação do estado de Buda através da nossa fé e da nossa prática. Em outras palavras, a importância do Gohonzon como a incorporação da iluminação de Nitiren é somente significativa e real na medida que os praticantes oram com fé e observam-no como um exemplo a ser seguido, não como uma força externa salvadora. Neste sentido, o significado do Gohonzon como desejado por Nitiren é de criar através de uma dinâmica interação entre o objeto de devoção e o devoto. Embora, o significado do Gohonzon seja incompleto sem a fé e a prática do seguidor.


A Torre do Tesouro: A Imagem do Gohonzon


O design do Gohonzon tem origem junto ao surgimento do Budismo Mahayana, movimento que tomou forma durante o século I, na Índia. Como forma de reação ao Budismo monástico, que enfatizava a salvação pessoal através de austeridades, os budistas do movimento Mahayana enfatizavam a importância do altruísmo e o papel dos praticantes leigos (bodhisattvas) na propagação dos ensinos. Os seguidores desta doutrina intitularam-na “Mahayana” ou “Grande Veículo” que buscava conduzir o maior número de pessoas para o caminho da iluminação enquanto se referiam ao budismo monástico como “Hinayana” ou “Pequeno Veículo”. O movimento popular Mahayana desenvolveu-se em torno da adoração de estupas – edificações em formato de torre originalmente construídas para consagrar as relíquias do Buda Sakyamuni. Após a sua morte, entre os séculos IV e V AC, os seus seguidores leigos começaram a construir estas estupas, com destaque no reinado do rei Asoka (268-232 A.C.), que foi o terceiro governante da dinastia Maurya e o primeiro rei da Índia unificada. Muitos praticantes leigos se reuniam em torno destas estupas, buscando homenagear o falecido Buda.
A popularidade da adoração da estupa se torna evidente ao detectarmos o papel central da Torre do Tesouro contida no Sutra de Lótus e posteriormente, Nitiren Daishonin, utilizou a imagem da Torre do Tesouro contida no Sutra de Lótus como fonte gráfica primordial na inscrição do Gohonzon. No centro deste consta “Nam-myoho-rengue-kyo, Nitiren”, na qual significa despertar para a Lei Universal do Nam-myoho-rengue-kyo ou Estado de Buda. Ele explanou: “A Torre do Tesouro é o Nam-myoho-rengue-kyo”, assim, Nitiren observava a Torre do Tesouro descrita no Sutra de Lótus como a natureza inerente do estado de Buda existente na vida de todas as pessoas. Logo, ele escreveu para um de seus discípulos: “Abutsu-bo é a própria Torre do Tesouro, e a Torre do Tesouro é o próprio Abutsu-bo”.
As inscrições em ambos os lados do Gohonzon descrevem a assembléia de vários seres vivos que se reúnem em torno da Torre de Tesouro para ouvirem as preleções de Sakyamuni como descrito no Sutra de Lótus. Alguns dos participantes nem são seres humanos, como a filha do Rei Dragão, que chegou a alcançar o estado de Iluminação. A diversidade da chamada Cerimônia do Ar, descrita no Sutra de Lótus, reflete a natureza da adoração das antigas estupas, na qual não era limitada para a elite monástica, mas era aberta para todas as pessoas. Estas inscrições no Gohonzon representam os dez estados de vida: 1. Intenso sofrimento e desespero (Inferno), Desejos insaciáveis (Fome), Egoísmo e Estupidez (Animalidade), Arrogância e Beligerância (Ira), Calma Provisória (Tranqüilidade), Alegria Intensa Provisória (Êxtase), Auto-Aperfeiçoamento (Erudição), Despertar para Verdades Parciais da Natureza e Humanidade (Absorção), Altruísmo (Bodhisattva), e o indestrutível estado de felicidade com base na compaixão e sabedoria (Estado de Buda). De forma gráfica, o Gohonzon mostra que cada um dos dez estados de vida – quando embasados firmemente na Lei do Nam-myoho-rengue-kyo – exibe as suas funções positivas que visam nutrir a existência e trazer a felicidade. Por exemplo, embora possamos nos encontrar no estado de Inferno, através de nossas orações ao Gohonzon, podemos transformar nosso intenso sofrimento e desespero como fonte de força e esperança para sobrepujar todas as dificuldades. Incidentalmente, alguns dos aspectos rituais que envolvem a nossa prática ao Gohonzon tem origem na adoração dos budistas Mahayana em torno das estupas. Por exemplo, o soar do sino deriva do oferecimento de música defronte a estupa, assim como o oferecimento de incenso e flores, como descrito no Sutra de Lótus.
Palavras e Imagem: Universalidade Subjetiva
A forma de expressão escolhida por Nitiren Daishonin para descrever a Torre do Tesouro é única. Ele descreve a Torre do Tesouro e a assembléia de vários seres através de caracteres escritos. Embora haja exemplos de descrição pictorial da Torre do Tesouro ou de objetos religiosos caligráficos que precedem o Gohonzon; a imagem da Torre do Tesouro por Nitiren descrita somente através de caracteres escritos é rara e sem precedentes. O uso de caracteres gráficos segue a ênfase sobre as escrituras dentro da tradição budista. Após a morte de Sakyamuni, as estupas contendo as relíquias de Sakyamuni tornaram-se objetos de veneração entre os praticantes leigos. Em pouco tempo, as imagens pictoriais e esculturas de Sakyamuni e outros budas, assim como de bodhisattvas e divindades budistas, começaram a ser produzidas como ícones religiosos. Além disso, especialmente dentro da tradição Mahayana, foi dado uma ênfase maior em relação às escrituras, chegando ao ponto das pessoas adorarem os textos budistas. Por exemplo, na Índia medieval, os Sutras da Sabedoria (Prajna Paramita) tornaram-se o objeto de devoção entre os budistas Mahayana. Com respeito à importância religiosa das escrituras dentro da tradição Mahayana, Jacob N. Kinnard comentou: “As relíquias e estupas são certamente dignas de veneração…mas o livro é mais valioso e valorizado, pois é a fonte da sabedoria do Tathagata, e conseqüentemente a origem da iluminação do Buda e a fonte de valor destas relíquias”.
Geralmente, Daishonin também enfatizou a importância dos materiais escritos, particularmente o Sutra de Lótus. Por exemplo, ele declarou: “O Sutra de Lótus é tanto o ensino do Buda como a incorporação do seu ensino. Se o indivíduo deposita sua sincera fé em cada um dos caracteres e devota em aplicá-los, então irá se tornar um Buda em sua presente forma” (MWD, 969). Refutando o budismo Zen medieval, que rejeita o papel das escrituras budistas, Daishonin declarou: “Se alguém renega os caracteres escritos, o que mais poderia ser considerado como o trabalho do Buda ?” (Gosho Zenshu, 153) Ele também declarou: “Os caracteres são a forma para que todos os seres humanos manifestem as suas mentes” (Ibidem, 380). O uso de caracteres escritos por Daishonin no estabelecimento do Gohonzon reflete a sua forte crença no papel do material escrito na comunicação, não somente na realidade física, como também na realidade espiritual da humanidade.
O uso da imagem da Torre de Tesouro por Daishonin - como o tema gráfico para a inscrição do Gohonzon e o uso de caracteres escritos como uma forma de expressão - demonstra sua profunda compreensão em relação à natureza da veneração religiosa. Ele parece ter compreendido como uma imagem e um texto escrito ecoam de forma diferente da mente humana. Ao escrever o Gohonzon como uma imagem expressa em caracteres, Daishonin unificou uma imagem gráfica específica com a universalidade dos caracteres escritos para transmitir a realidade do estado de Buda que é único para cada pessoa, ao mesmo tempo que é simultaneamente universal para toda a humanidade. O aspecto universal, ainda que subjetivo, do estado de Buda é um ponto central no ensino de Daishonin, na qual promove o nosso despertar ao supremo potencial existente em nossas vidas e de todas as pessoas.
O Gohonzon é concreto no sentido que descreve uma imagem específica, mas não é uma imagem pictorial da Torre do Tesouro, Sakyamuni ou Nitiren Daishonin. Se o Gohonzon fosse desta forma, seria fácil observá-lo como a descrição da vida de algum ser ou de algum fato ocorrido no remoto passado. Se o Gohonzon fosse a imagem de Daishonin, nós poderíamos respeitá-lo, mas nunca poderíamos nos sentir identificados com ele. Simplesmente, porque a maioria de nós, não iria parecer como um monge japonês do século XIII ! Ao invés disto, Daishonin criou o Gohonzon em caracteres que descrevem uma imagem específica da Torre do Tesouro, na qual simboliza o nosso estado de Buda inato. Os caracteres escritos são utilizados para expressar conceitos universais, mas, geralmente, eles não possuem um senso de proximidade. Em contrapartida, as imagens despertam respostas elícitas das pessoas, pois desencadeiam um processo imediato em nossos sentidos físicos. O Gohonzon, em termos de motivo gráfico e caligráfico, é um híbrido em sua comunicação escrita e visual. Observando a forma como Daishonin escolheu para escrever o Gohonzon, pode-se afirmar que ele provavelmente buscava comunicar-se com os aspectos conceptuais e sensoriais da nossa mente, sobre a universalidade da natureza de Buda e sua proximidade em nossas vidas.
Jean Paul Friedrich Richter, um crítico literário alemão, explanou sobre a natureza subjetiva da poesia como se segue: “A poesia devia ser como a lua, que de noite segue aquele transeunte que passeia por uma floresta em todo o seu percurso, ao mesmo tempo que acompanha outro indivíduo de maré a maré. Ao mesmo tempo, simplesmente descreve seu grande arco por todo o céu e finalmente delineia-se por toda a Terra e todos os viajantes”.
A analogia de Richter sobre a lua serve para descrever as funções do Gohonzon. Ele ilumina a existência do estado de Buda de cada praticante. Ao mesmo tempo, o Gohonzon traça a órbita da iluminação para que todas as pessoas possam vê-la. O Gohonzon – como a lua que segue individualmente todos os viajantes da Terra – traz luz ao estado de Buda inato de cada um de nós.
O intento de Daishonin é trazer o significado universal do Gohonzon para todas as pessoas e também evidenciar os aspectos culturais e linguísticos deste. Ele utilizou palavras e personagens da Índia, China e Japão para retratar o Gohonzon.
Duas divindades budistas estão inscritas em sânscrito medieval, o grande bodhisattva Hatiman é originário da mitologia japonesa, e há o Grande Mestre Tientai, que estabeleceu a supremacia do Sutra de Lótus na China medieval. No Japão da época, estes três países eram vistos como a totalidade do mundo civilizado. Em outras palavras, Daishonin provavelmente desejou criar um Gohonzon universal, tanto em linguagem, como em conteúdo.
Alguns dos aspectos físicos do Gohonzon sugerem considerações minuciosas por Daishonin no que se refere à criação de um objeto de devoção adequado para conduzir uma mensagem única para todos os praticantes: a realidade pessoal e universal da natureza de Buda. Com certeza, o que é mais importante em nossa prática é o ato de recitar o Nam-myoho-rengue-kyo ao Gohonzon. Entretanto, estes pequenos detalhes aparentemente revelam muito sobre a sabedoria e compaixão de Daishonin. O objetivo deste artigo é que através deste conhecimento possamos nos tornar cientes das intenções de Daishonin ao inscrever o Gohonzon, incentivando-nos a orar de forma mais vigorosa e convicta. (por Shin Yatomi)
Fonte: Living Buddhism, Set/2000
Preciosa colaboração de Charles Chigusa http://lw3fd.law3.hotmail.msn.com/cgi-bin/compose?curmbox=F000000001&a=5efe9d475c53e6bbf5e341b3135393de&mailto=1&to=chigusacharles@hotmail.com&msg=MSG996466309.1&start=486668&len=66385&src=&type=x
Veja também o artigo Gohonzon- O tesouro da vida

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