"Quando sua determinação muda, tudo o mais começa a se mover

em direção ao seu desejo".

3 de jan. de 2009

GOSHO - Carta a Ko-no-Ama Gozen

(Ko-no-ama Gozen Gosho – Págs. 1324 a 1325)

Recebi trezentos mon de moedas da esposa de Abutsubo. Como ambas as senhoras possuem a mesma mente, peçam a alguém que leia esta carta e ouçam-nas juntas.
Recebi o robe de verão sem forro que enviou-me aqui, nos recessos desta montanha da Vila Hakiri, na província de Kai, da distante província de Sado, onde mora. O capítulo Hosshi do quarto volume do Sutra de Lótus afirma: "Se houver alguém que, em sua busca pelo Caminho do Buda, juntar as palmas de suas mãos durante todo um kalpa e, em minha presença, louvar-me com incontáveis versos, obterá imensurável benefício devido a esse elogio ao Buda. Porém, aquele que louvar os sustentadores desse sutra terá benefícios que ultrapassam até mesmo aquele". Isto significa que o benefício de fazer oferecimentos a um devoto do Sutra de Lótus na era maléfica dos Últimos Dias da Lei supera o de servir com toda sinceridade um Buda tão nobre quanto Sakyamuni com o corpo, boca e mente durante a totalidade de um kalpa médio. Embora isto possa parecer inacreditável, não deve duvidar, pois são os ditos dourados do Buda.
O Grande Mestre Miao-lo esclareceu mais amplamente esta passagem do Sutra, dizendo: "Se houver alguém que moleste (um pregador do Dharma), então a cabeça dele será partida em sete pedaços; se houver alguém que faça oferecimentos (ao pregador), sua boa sorte excederá a dos dez títulos honoríficos". Em outras palavras, o benefício de fazer oferecimentos a um devoto do Sutra de Lótus nos Últimos Dias da Lei ultrapassa o de fazer oferecimentos a um Buda dotado com os dez títulos honoríficos. Por outro lado, aquele que perseguir um devoto do Sutra de Lótus na era impura terá a sua cabeça quebrada em sete pedaços.
Eu, Nitiren, sou a pessoa mais afortunada do Japão. A razão porque digo isto é a seguinte: Deixando de lado os sete reinados dos deuses celestiais e estando a cinco reinados dos deuses da terra além do meu conhecimento, e considerando somente o decorrer dos noventa reinados desde a época do primeiro imperador humano, Jimmu, até o presente, ou durante os mais de setecentos anos desde o reinado do Imperador Kimmei (quando o Budismo foi introduzido neste país), ninguém foi tão universalmente odiado quanto Nitiren devido tanto a assuntos seculares como budistas. Mononobe no Moriya queimou templos e pagodes, e Kiyomori Nyudo mandou destruir os templos Todai-ji e Kofuku-ji, mas as pessoas de seus clãs não alimentaram ódio contra eles. Masakado e Sadato rebelaram-se contra a corte imperial, e o Grande Mestre Miao-lo provocou o antagonismo dos sacerdotes dos sete principais templos de Nara, mas esses homens não foram odiados pelos clérigos, freiras, leigos e leigas de todo o Japão. No meu caso, entretanto, pais, irmãos, mestres e colegas, sacerdotes – cada simples pessoa, do governante ao povo – tratam-me como se eu fosse inimigo de seus pais, e mostram-me mais hostilidades do que se eu fose um rebelde ou um ladrão.
Deste modo, algumas vezes fui aviltado por várias centenas de pessoas e outras, assediado por milhares; fui atacado por vários milhares; fui atacado com espadas e bastões. Fui tirado de minha residência e banido de minha província. Finalmente, incorri por duas vezes no desagrado do regente, sendo exilado numa ocasião à Península de Izu e, na seguinte, à Ilha de Sado. Quando fui banido para Sado, no mar do norte, não tive nem provisões para sustentar-me, nem roupas tão grosseiras como as feitas com cipós de glicínios para cobrir o meu corpo. As pessoas lá, tanto sacerdotes como leigos, odiaram-se ainda mais do que os homens e mulheres da província de Sagami. Abandonando no isolamento e exposto à neve, mantive a minha vida comendo grama.
Senti-me como se estivesse experimentando pessoalmente o sofrimento de Su Wu, que sobreviveu alimentando-se de neve enquanto viveu em cativeiro na terra dos bárbaros do norte por dezenove anos, ou Li Ling, que ficou preso numa caverna rochosa na praia da costa norte durante seis anos. Suportei essa provação não por causa de alguma culpa minha, mas unicamente pelo desejo de salvar todas as pessoas do Japão.
Contudo, enquanto estive exilado naquele local, a senhora e seu marido, Ko Nyudo, evitando os olhos dos outros, trouxeram-me alimentos à noite. Ambos os senhores estavam prontos a darem suas vidas em meu benefício, sem temer a punição por parte das autoridades da província. Portanto, embora a vida em Sado fosse severa, relutei em partir, sentindo-me como se o meu coração estivesse sendo deixado para trás, e eu parecia ser atraído para trás a cada passo que dava.
Tento imaginar que laços cármicos formamos no passado. Exatamente quando estava ponderando o quanto isto era misterioso, a senhora enviou-me o seu preciosíssimo marido, como seu mensageiro, a esse distante lugar. Pensei ser um sonho ou uma ilusão. Apesar de não poder vê-la, estou certo que o seu coração permanece aqui, comigo. Todas as vezes que ansiar ver-me, olhe para o sol que se eleva de manhã e para a lua que surge à noite. Estarei invariavelmente refletido no sol e na lua. Na próxima existência, encontremo-nos na terra pura do Pico da Águia. Nam-myoho-rengue-kyo.
Nitiren,
Décimo-sexto dia do sexto mês.

Fundo de Cena

Nitiren Daishonin escreveu esta carta no Monte Minobu, em 16 de junho de 1275, a mulher chamada Ko-no-ama, que morava no centro do governo da província da Ilha de Sado. Ko significa seção provincial. Enquanto Nitiren Daishonin esteve exilado em Sado, Ko-no-ama converteu-se a seus ensinos. Ela e seu marido, Ko Nyudo (Nyudo indicando sacerdote leigo) fizeram oferecimentos e ajudaram a protegê-lo. Após Nitiren Daishonin ter sido perdoado e deixar Sado, Ko Nyudo, assim como Abutsubo, empreenderam a longa jornada até Minobu para visitá-lo, Nitiren Daishonin menciona a visita de Ko Nyudo a ele em Minobu num Gosho intitulado ‘Resposta a Ko Nyudo’, data de abril de 1275. Como esta presente carta data de junho, uma explanação defende que possa ter sido escrita em 1274, ao invés de 1275.
Em primeiro de novembro de 1271, Nitiren Daishonin foi levado a Tsukahara, o local inicial de seu exílio na Ilha de Sado. O seu abrigo era um santuário em ruínas chamaado Sanmai-do, o meio de um cemitério. O mesmo era exposto ao vento, e a neve caía através das enormes fendas no teto. Nitiren Daishonin permaneceu lá aproximadamente meio ano, tempo durante o qual escreveu ‘A Abertura dos Olhos’ e outras importantes obras.
Então, foi transferido para a residência de Itinosawa Nyudo em Itinosawa. Enquanto esteve em Sado, conseguiu muitas conversões, inscreveu o Gohonzon para praticantes em particular e escreveu um grande número de valiosas cartas e tratados. Em 8 de março de 1274, um oficial do governo chegou à Ilha de Sado com uma ordem de perdão e Nitiren Daishonin retornou a Kamakura em 26 de março. Após a sua terceira repreensão ao governo, retirou-se a Minobu, onde devotou-se em assegurar a transmissão correta de seus ensinos à prosperidade.
Incumbido de transportar os presentes, um robe de verão, de sua esposa, e trezentos mon de moedas, de Senniti-ama, Ko Nyudo transpôs a longa distância para visitar Nitiren Daishonin em Minobu. Nesta carta, ele expressa sua consideração por essas doações, e explica o grande benefício de se fazer oferecimentos ao devoto do Sutra de Lótus nos Últimos Dias da Lei, citando uma passagem do capítulo Hosshi (décimo) do Sutra. Em sequência, descreve as adversidades que suportou, especialmente em Sado, em prol do budismo, e expressa sua gratidão a Ko-no-ama e Ko Nyudo, que o protegeram mesmo diante do risco de suas vidas.


As mais Belas Histórias Budistas - As Escrituras de Nitiren DaishoninEndereço: http://www.vertex.com.br/users/san/goshos e-mail: sandro@vertex.com.br

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