"Quando sua determinação muda, tudo o mais começa a se mover

em direção ao seu desejo".

1 de jan de 2009

MESTRE - DISCÍPULO

Mestre-Discípulo: Um modelo para a prática religiosa do Novo Milênio Por Greg Martin (Curso de Verão, Baltimore, 21 de julho de 2001)

Tradução não oficial para o português: Ariel Ricci aricci@estadao.com.br - Revisão: Erika J M. Millanao e Jesus Ricardo M. Millanao millanao@hotmail.com


Gostaria de referir-me sobre a relação de Mestre-Discípulo. Tenho vários motivos para escolher este assunto. Em primeiro lugar, porque ouvimos falar muito a respeito disso nesses últimos dias. Na realidade, e na opinião de alguns, ouvimos falar muito sobre o assunto. De fato , passaram-se trinta anos quando comecei a praticar, e já se falava sobre esse assunto, hoje ouço falar muito mais de que naquele tempo e, para ser honesto, este assunto de Mestre-Discípulo me incomodou durante muito tempo. Não sei exatamente porque me incomodava, mas posso lhes dizer que me alegrou quando deixamos de chamá-lo "Mestre-Discípulo" e passamos a chamá-lo "Mentor-Discípulo", me deu um certo alívio. Mas continuava a me preocupar. Somente a idéia do Mentor, a simples imagem dessa pessoa, era muito difícil de aceitar.
Mas, paralelamente, ao estudar - algo que desfruto fazendo -, quando lia o Gosho, quando lia o Sutra de Lótus ou a orientação do presidente Ikeda, ficava evidente que não podia descartar esta parte do ensinamento. Não podia ignorá-la: era importante. Realmente, o Sutra de Lótus na sua totalidade gira em torno da relação, diálogo e interação entre o Buda Sakyamuni e seus discípulos. O Gosho de Nitiren Daishonin é constituído de cartas escritas de um mestre aos seus alunos e pelo diálogo que ele criava nos seus escritos.
Defrontava-me, então, com um verdadeiro dilema: por um lado, tinha aqui algo que não podia realmente compreender e que me sentia incomodado. Por outro lado era consciente da extrema importância de entender este ponto para poder compreender o budismo.
Por tanto, gostaria de referir-me a alguns aspectos de minha atual (já que ela continua crescendo e desenvolvendo-se) perspetiva sobre a relação Mentor-Discípulo. E antes de mais nada desejaria ler um fragmento de uma orientação do presidente Ikeda extraída de "Fé em ação":
"O sangue vital do Budismo existe somente dentro da fé correta e manifesta-se na Lei. Uma correta fé, veículo da corrente vital do Budismo, só se transmite através da relação Mentor-Discípulo. Nitiren Daishonin escreveu no Gosho «Advertências sobre os atos contra a Lei»: 'Se alguém esquecer o mestre original que trouxe a água da sabedoria desde o grande oceano do Sutra de Lótus, para seguir a outro certamente se afundará no interminável sofrimento da vida e da morte'".
E minha análise sobre o assunto tem me levado à conclusão de que Mestre-Discípulo é, de fato, um modelo de fé religiosa válido para o próximo milênio. E não somente para nós, constitui um modelo de postura religiosa orientadora para todas as filosofias.
Até agora, o modelo aceito de fé religiosa em quase todas as tradições tem sido aquele de relação entre "ser superior e ser inferior". Com grande freqüência o mestre se eleva ao nível de um deus, deixa de ser um ser humano para situar-se num posto elevado. O mesmo encontramos dentro do ser humano em sua postura da fé: olhar para cima procurando alguma entidade maior ou poderosa. Não só "esta pessoa" encontra-se sobre nós, ela é melhor do que nós, mais poderosa do que nós, mais sábia do que nós, mas também supõe que estejamos "aqui embaixo". Esta relação "mais alto - mais baixo" conduz ao modelo básico de fé religiosa: o de adoração. Acaba-se adorando a este ser, esta entidade ou qualquer que seja o nome que queiram lhe dar.
Será este o modelo correto de fé religiosa válido para nossos dias, para esta época? Minha conclusão é "Não". No exato momento em que o fundador de uma religião, por mais grandioso que tenha sido, é colocado num pedestal... o que acontece conosco? Somos situados embaixo. Isto nada mais é do que o resultado de uma tendência humana profundamente enraizada que é a falta de fé em nós mesmos, e a dificuldade de acreditar nas nossas próprias possibilidades. É algo difícil, certo? Recitamos o Nam-myoho-rengue-kyo, fazemos o Gongyo de manhã e à noite, aprendemos que nós somos o Buda... mas é difícil acreditar. É difícil de vivê-lo ( colocar em prática).
Para os seres humanos é difícil aceitar nossa grandiosidade. Existe uma citação atribuída a Nelson Mandela que afirma que não é da nossa fraqueza que temos medo, e sim de nossa luz, de nossa grandeza. Tememos que possamos chegar a ser, de fato, muito mais do que acreditamos ser. Temos a tendência de considerar outros como melhores, mais benevolentes, mais sábios, etc. e os colocamos num pedestal. Depositamos neles nossa confiança, esta é a história das religiões humanas.
Em algumas tradições religiosas, se o fiel simplesmente pensasse em estar "lá em cima", esta arrogância já constituía uma heresia. Houve uma época na era Cristã em que torturavam e queimavam vivas às pessoas que afirmavam isso.
Na "A sabedoria do Sutra de Lótus", o presidente Ikeda trata sobre esse ponto. Em referência ao Buda Sakyamuni, Sensei cita a Jawaharlal Nehru (1889-1964, discípulo de Gandhi e primeiro governante da Índia após sua independência da Inglaterra em 1947), que afirmou uma vez que: no momento em que Sakyamuni foi elevado ao status de ser sobre-humano pelos seus discípulos - sem dúvida cheios de boas intenções- e deixou de ser um ser humano para converter-se num deus, numa divindade, alguém melhor do que vocês e eu, foi nesse instante que desapareceu o humanismo do budismo. As pessoas começaram a venerar e buscar os poderes do Buda e, nesse processo, implicitamente aceitaram que eles mesmos careciam de poder. Viram como funciona? No mesmo instante em que começamos a buscar "fora", já estamos nos auto-negando. E quanto mais o fazemos, mais difícil é acreditar naquilo que poderíamos ser. A maioria das religiões concluem que "nós não somos isso", "nós não podemos fazer" e que a única esperança que podemos ter é que, ao morrer, acabaremos indo para um lugar melhor.
Ralph Waldo Emerson (1803-1882) afirmou que nos Evangelhos sempre lemos a respeito da grandiosidade do homem... mas na igreja somente escutamos sobre a grandiosidade de Jesus. É aqui onde está o problema: devemos implorar a Jesus que nos devolva o poder, que nos permita que Deus entre em nossas vidas... Esta é uma visão muito pessimista da condição humana!
Num sábado à noite ,há dois anos atrás, estava na minha casa quando recebi um chamado de um membro da Califórnia, ela trabalhava como produtora de um programa de televisão do Reverendo Lawson, um ministro batista de Los Angeles. Um convidado agendado não poderia ir ao programa, então me convidou no lugar dele para o programa do Domingo, que seria transmitido por um canal cristão. "Mas antes de responder a ela , ela advertiu-me" devo lembrá-lo que amanhã é domingo de Páscoa e o Reverendo certamente perguntará: 'O que pensam vocês os budistas a respeito da ressurreição de Cristo?"
Respondi a esta senhora: "A verdade é que não pensamos freqüentemente sobre este assunto!". Ela disse: "Mas, Greg, esta seria uma grande oportunidade para estabelecer um vínculo, porque você se lembra que o Rev. Lawson, que foi um dos discípulos do Dr. (Martin Luther) King, e já ouvirá falar a respeito da SGI". Então eu disse: "Não tenho a mínima idéia do que possa falar com ele". E ela me respondeu: "Bom, acredito que você pensará em alguma coisa" (conhecia-me muito bem!). Acabei aceitando.
Então comecei a orar sobre o assunto e a pensar "E o que eu faço se me fizer esta pergunta? O que vou responder?". Eu acabava de terminar um novo fragmento de "A sabedoria do Sutra de Lótus" que aborda o modelo de fé religiosa de Mestre - Discípulo e segundo o qual poderíamos considerar Jesus, sua vida e sua ressurreição como um mestre, um guia, um modelo para nossa própria vida e não como alguém especial a quem não nos parecemos. Então disse a mim mesmo: "Teremos que ir corajosamente onde nenhum budista jamais foi e vejamos no que acontecerá!".
Iniciou-se o programa e começamos a conversar, tal como havíamos previsto, olhou-me e me perguntou: "O que os budistas pensam a respeito da crucificação e da ressurreição de Cristo?". Respondi baseando-me no conceito de "Mentor - Discípulo" como modelo de fé religiosa para o século XXI. (Nesse momento, o programa estava sendo assistido em 15 milhões de lares nos Estados Unidos, tinha certeza de que haviam vários cristãos me vendo e avisando: "Olha o que vai responder!") [risadas]
De todos os modos, fui em frente: "Bem, meu Mestre ensina que o modelo correto de fé religiosa deveria ser o de Mentor - Discípulo e não o de Deus - Seres humanos. Portanto, se estudamos a vida e a morte de Jesus como ser humano e modelo de vida para nos ensinar sobre nossas próprias vidas, então podemos ter algumas conclusões. Antes de mais nada, ele foi ressuscitado. Isso significa que a vida não termina com a morte, e sim que há algo além: voltaremos a renascer. E, também, ele ressuscitou em melhores circunstâncias, não é mesmo ? Sentou-se à direita de Deus, se meu conhecimento sobre cristianismo não estiver errado: uma esplêndida circunstância para renascer. O que o fez merecedor de tal magnífico renascimento? Como ganhou isso?" E logo acrescentei: "Para compreendê-lo, deveríamos analisar sua vida".
"Algumas conclusões são: primeiro, o simples fato de que alguém viva por muitos anos não determina em que condições renascerá. A duração da própria vida não constitui o ponto, porque Jesus não viveu muitos anos. Segundo, quanto sofrimento nós podemos evitar, ou quão fácil e cheia de conforto seja sua vida, também não constitui o ponto, porque Jesus, pelo contrário, viveu e morreu com sofrimento e dificuldades. Em compensação, deveríamos analisar a história de sua vida e tentar perceber a verdadeira mensagem que ela transmite, encontra-se em como ele tratou aos outros, especialmente àqueles que as pessoas ignoravam, discriminavam ou marginalizavam: aos doentes, aos que sofriam, aos pobres, aqueles das camadas mais baixas da sociedade. E a maneira com que ele tratou seus semelhantes é que define a dimensão deste homem. É devido a isso que renasceu numa circunstância melhor".
"Por tanto nós, como budistas, poderíamos considerar Jesus como um grande mestre e encontraríamos sabedoria neste ponto. Podemos extrair o sábio ensinamento de que a maneira como vivemos esta vida determinará a próxima, qualquer que esta seja. E, que o ponto chave é a maneira como atravessamos esta vida, deveríamos seguir seu comportamento, ser nós mesmos Jesus, em vez de venerar seu poder. Por isso, poderíamos considerar Jesus um mestre".
O Reverendo Lawson olhou-me firmemente e eu pensei: "Ah ah, aqui vai ter encrenca". Mas disse: "Isto é absolutamente correto! Como lhe ocorreu isso?" (Tinha tido a mesma conversa com Dean Carter no fim de semana passado e ele tinha me confessado: "Sim, isto é absolutamente correto. O triste é que a maioria dos cristãos não o sabem").
Do ponto de vista do modelo Mentor - Discípulo, o Mentor nunca deixa de ser um ser humano, e devido ao Mentor continuar sendo um ser humano, é que faz o modelo transforma-se em algo que podemos alcançar. Não somente temos a possibilidade, mas, encontra-se imbuído da imagem de que nós estamos fazendo o mesmo que ele.
Assim como o presidente Ikeda diz no "A sabedoria do Sutra de Lótus": a relação de Mentor - Discípulo nos desafia como discípulos a ter uma visão fundamentalmente diferente de nós mesmos. Podemos deixar de nos ver como inadequados, incapazes, ou não possuidores das mesmas qualidades que ele. Como discípulos, como estudantes, se optarmos pelo modelo Mentor - Discípulo, ao reconhecer que o Mestre põe uma meta muito alta, ele acaba por nos mostrar a incrível capacidade do ser humano. O propósito da vida do Mestre ( Sakyamuni, T'ienTai, Nitiren Daishonin, o presidente Ikeda ou quem for) não é dizer: "Olhem como sou grande!". E sim expressar: "Considerem-me como um exemplo de o quão grandes vocês podem chegar a ser!". Isto constitui uma visão completamente diferente do assunto: é um desafio, é difícil de acreditar.
Quando admiramos um grande Mentor e aquilo que têm conseguido com o seu incentivo, sua coragem, sua benevolência e sua sabedoria, a primeira coisa que pensamos é dizer: "Ele deve ser diferente de nós" porque sentimos uma lamentável consciência de nossas fraquezas, limitações, maldades, pensamentos negativos e tudo mais, é impossível imaginar que, dentro de nossa vida humana, existam exatamente as mesmas qualidades. Aí reside o ponto: a possessão mútua dos Dez Estados, ela nos ensina que o Buda se manifesta como um mortal comum mesmo que cheio de fraquezas, preguiça e todo tipo de tendências negativas, e que também possui todas as qualidades de um Buda.
Sakyamuni no Sutra de Lótus tentava nos ensinar à sua maneira não somente o quanto era grande sua vida mas, o mais importante era que o quanto grande é a vida de cada ser humano individual, já que eternamente possuímos a natureza de Buda e podemos manifestá-la na nossa vida cotidiana.
Infelizmente, poucos anos após sua morte, seus discípulos perderam esta visão e começaram a acreditar que Sakyamuni era alguém especial, diferente, alguém que vocês e eu jamais poderíamos alcançar. Foi então, evidentemente, que o Buda histórico foi promovido a algo superior e nós fomos rebaixados, esta é a lacuna que existe entre ele e nós. E quem apareceu convenientemente entre ele e nós? Os sacerdotes: eles mesmos criaram seus próprios empregos. Se eles nos tivessem elevado ao mesmo nível do fundador, não teria existido o negócio. Portanto, se nos basearmos nas suas fracas naturezas, não está entre os principais interesses dos sacerdotes lembrar-nos , que nós leigos também possuímos esse poder.
Assim foi que os sacerdotes transformaram-se em emissários, em enviados. Eles dizem: "Não se preocupe, irei à cima da montanha e regressarei trazendo-lhe a mensagem do Buda, confie em mim. Lhe contarei o que ele me disse, mas você... não, você não pode ir, não não não". No instante em que isto aconteceu, o humanismo do Budismo se perdeu. Centralizou-se nos sacerdotes e intermediários, enquanto que para as pessoas comuns, você e eu, que vivemos vidas comuns, o budismo transformou-se em algo impraticável em nossa vida diária, e assim nos tornamos dependentes dos "intermediários", que diziam, interpretavam, ajudavam a entender e nos "concediam" a sabedoria. Pedíamos ajuda a eles, e eles oravam por nós , por algum motivo sua oração era mais poderosa que a nossa. Eles estavam mais próximos de Deus porque encontravam-se sempre em cima da montanha. O mesmo aconteceu com Jesus. O Jesus humano converteu-se assim no "Senhor Jesus Cristo".
Um exemplo muito interessante desse modelo de fé religiosa é estabelecido no feudalismo. Do mesmo modo, há um Senhor Jesus Cristo, um Senhor Sakyamuni e nós não somos mais do que os camponeses "vassalos da fé", não é assim? E eternamente permaneceremos como vassalos ou meeiros da fé, por assim dizer. E sempre estaremos endividados com o armazém da companhia e o mesmo acontecerá com os nossos filhos, que herdarão nossa dívida.
O Buda possui três virtudes: a de pai, mestre e soberano. Graças ao fato de Nitiren Daishonin inscrever o Gohonzon, este também possui essas três virtudes. Mas isto gera três relações: a de Pai-Filho, a de Mestre-Estudante a de Amo-Subordinado.
Então, se o budismo tem a função de pai, então seus discípulos são os filhos do Buda. Freqüentemente ouvimos que "todos somos filhos do Buda". Na verdade, se o budismo influenciou o cristianismo - assim como dizem que fez - então isto equivale ao "Filho de Deus". Todos somos filhos e filhas de Deus sob este aspecto. Mas, o modelo de Pai-Filho é o mais adequado para a fé budista?
Apesar de constituir um aspecto importante, para que o Gohonzon funcione como um pai que nos abraça com amor e benevolência, que cumpra as funções que todo pai deve cumprir... então deve existir um filho. Portanto, um aspecto da fé consiste em aproximar-se do Gohonzon e à prática, e confiantes como crianças. Não quero dizer que permaneçamos sendo infantis, mas que a pureza e a sinceridade da confiança no Buda constituem um importante aspecto da fé e assim entendemos porque as dúvidas interferem na fé. Se o bebê duvidar do leite materno e falar: "Espera um minuto, quero uma análise disso antes de bebê-lo" [risadas], então se defrontaria com um verdadeiro problema!
Claro que não se trata de fé cega e de confiança cega. Não deveríamos ser incondicionais, mas possuir confiança. Quantas vezes nossos antecessores nos pedem que "confiemos no Gohonzon?". Para ser capaz de confiar, é necessário impedir e ultrapassar as próprias dúvidas, sem escondê-las. Casualmente numa destas noites me perguntava como seria ter uma fé livre de dúvidas. Escutamos muito freqüentemente que "Se realmente tivéssemos fé, se verdadeiramente fôssemos sérios, nunca deveríamos duvidar". Então, assim que temos dúvida, nós sentimos envergonhados por isso, ou escondemos, ou queremos suprimir, não podemos contar a ninguém porque estaríamos evidenciando algo que anda mal em nós mesmos. E isto é incorreto.
Todos duvidamos. De fato, o Buda usou a dúvida no Sutra de Lótus para despertar o espírito de procura dos seus discípulos e ajudá-los a atravessar o lugar no qual se encontravam crentes de que já tinham atingido um novo estágio na fé. A dúvida constitui o primeiro passo para aprofundar nossa fé, portanto, não deveríamos nos envergonhar de nossas dúvidas, pelo contrário deveríamos ser honestos, assumi-las, enfrentá-las, explorá-las, porque uma fé mais profunda nos aguarda no final desse processo. Quanto mais profundas são nossas dúvidas, mais profunda é a fé que conquistamos uma vez que as vencemos.
Portanto, deveríamos nos esforçar para ter uma fé "libertadora de dúvidas". Não livre de dúvidas e sim "libertadora de dúvidas", porque ao aplicar a força de nossa fé e prática para resolver nossas dúvidas nasce uma fé mais profunda. Esse é o verdadeiro aspecto de uma "criança".
Mas,a relação Pai-Filho possui suas implicações. Uma criança depende do seu pai, não é igual ao pai. E, por isso, não constitui o modelo adequado de fé religiosa para nós, já que não desejamos ser dependentes de nosso mentor, sempre obrigados a lhe pedir nosso alimento, sempre escutando o que temos que fazer e necessitando da sabedoria necessária para decidir por nós mesmos. Ser dependente do Mentor também não é o modelo correto de fé. Por outro lado, existe a relação Soberano-Súdito. Este é o modelo feudal do senhor e seus vassalos. A função do senhor feudal é proteger. No sistema feudal, os senhores tinham as armas e os soldados e assim protegiam as aldeias. Os vassalos faziam suas tarefas, cultivavam os campos e serviam ao seu senhor feudal. Este, em troca, os protegia. Portanto, a função de proteção surge quando participamos na nossa fé como bons soldados, como bons cidadãos da comunidade budista. Em nossos dias de democracia, predomina o pensamento de que a união dos budistas é o verdadeiro soberano, e não um indivíduo em particular. Na medida em que servimos a um grande objetivo, participando na grande tarefa do Kossen-rufu e concretizando o desejo do Buda como bons cidadãos da comunidade, estaremos protegidos.
Mas a relação Soberano-Súdito também tem implicações que não são apropriadas para um modelo de fé religiosa. O sujeito, o vassalo, nunca chegará a ser um senhor do sistema feudal: existe uma diferenciação entre classe alta/classe baixa, poderoso e fraco: definitivamente não é uma relação igualitária. Por isso, é importante servir à comunidade -isso é correto e não o descartamos- mas também não constitui o modelo principal.
O principal modelo de fé religiosa é o de Mestre-Estudante porque constitui uma relação humana dentro da qual o estudante pode aspirar não somente se igualar ao seu mestre como também até ultrapassá-lo podendo ir mais longe do que ele. De fato, o desejo do mestre é que o estudante não só alcance ser igual a ele, partindo do que o mestre o ensinou, mas que o leve ainda a um nível mais alto. Este é o modelo correto de fé religiosa.
Nós não escolhemos nossos pais, não escolhemos nosso soberano -ainda que desde o ponto de vista cármico o façamos- mas nós escolhemos nosso mestre. É uma escolha voluntária que fazemos e, devido ao fato de ser voluntária, constitui uma das relações mais importantes que podemos vir a ter na nossa vida. Existe um termo japonês chamado "judoshu" que significa "espírito de procura ao longo de uma vida". Não é nada fácil manter o espírito de procura ao longo da vida, é mais fácil quando somos jovens. Mas à medida que envelhecemos, torna-se mais difícil continuar buscando esse espírito, permanecer no caminho sem fim do crescimento pessoal e nunca chegar a um ponto no qual estamos satisfeitos e dizer: "eu consegui".
De fato, minha própria experiência me ensina que quando penso que "Consegui" é onde corro mais perigo, isto porque é evidente que não o consegui, pelo contrário estou continuamente "conseguindo". Estou buscando constantemente e este é um aspecto importante de nossa fé. Existe um termo chamado "juji soku ganjin" que significa: abraçamos o Gohonzon com estas três orientações espirituais que acabamos de ver: como crianças, buscamos e confiamos no Gohonzon. Como estudantes, buscamos e confiamos no Gohonzon, buscamos nosso mentor -Nitiren Daishonin ou o presidente Ikeda, que encarna o mentor porque é um excelente exemplo do que deve ser um discípulo. O presidente Ikeda está nos mostrando "Assim é como devemos caminhar nesta vida como discípulos de Nitiren Daishonin. Observem-me, eu lhes ensinarei. Lhes explicarei, lhes direi como serem excelentes discípulos". E "excelente discípulo" significa para Sensei "compartilhar o mesmo coração de Nitiren Daishonin".
Os discípulos de Sakyamuni -sem dúvida que por causa da sua sincera devoção- o elevaram a um plano especial, como alguém que se encontrava acima do ser humano comum e, nesse momento, a humanidade do budismo perdeu-se de vista. Nitiren Daishonin compreendeu perfeitamente este ponto. No Gosho "Sobre atingir o estado de Buda", Nitiren Daishonin afirma "Jamais pense que os 80.000 ensinos de Sakyamuni, assim como todos os Budas e Bodhisattvas do universo, existem fora de sua vida". Está enfatizando esse exato ponto. O Buda Sakyamuni não está fora de nós, e sim que ele, o estado de Buda, encontra-se dentro de nós , e repete esta mensagem sempre em todos os seus goshos.
Nitiren Daishonin escreveu o Gosho "A abertura dos olhos" para abrir os olhos das pessoas para o seu próprio estado de Buda. Então, quem é o pai, mestre e soberano de todos os seres vivos? É Nitiren Daishonin. Mas essa não foi a única razão pela qual ele escreveu este tratado, e também o fez para abrir nossos olhos para as nossas próprias possibilidades. Mas, pouco após à sua morte e no fim de poucas gerações, Nitiren Daishonin, um ser humano incrível, benevolente, sábio, etc. mas ser humano em última instância, foi endeusado e nós começamos a nos autodegradar e a idéia do Buda Verdadeiro ou do tesouro do Buda deixou nos excluídos a vocês e a mim. Aquele ser humano converteu-se em algo "especial" e seus discípulos tinham esquecido sua mensagem.
O 26º Sumo Prelado, Nitikan Shonin, lembrou isto e retornou ao ponto primordial. Ele disse: "O estado de vida de Nitiren está dentro de vocês, dentro das vidas de todas as pessoas que recitam o Nam-myoho-rengue-kyo ao Gohonzon: vocês são Nitiren Daishonin". Mas, logo, esta mensagem voltou a ficar de lado.
E então não foi um monge quem a reencontrou, e sim Tsunessaburo Makiguti, e depois a transmitiu para Jossei Toda. E Toda pela sua vez a transmitiu ao presidente Ikeda e ele está hoje tentando transmiti-la a todos nós. A chave é: nunca, mas nunca, jamais permitam a ninguém que se coloque acima de vocês mesmos. A relação Mentor-Discípulo constitui um vínculo humano. É verdade que os grandes mentores são pessoas incríveis que elevam os padrões até uma altura que às vezes é difícil de alcançar. Mas o propósito e significado de suas vidas e ensinos não é a respeito deles mesmos, e sim de nós. Trata-se de nos imaginarmos fazendo o mesmo que eles, encontrando dentro de nós suas maravilhosas qualidades.
O Mentor nos diz: "Observem-me, lhes mostrarei o que podem chegar a fazer...o que podem chegar a ser". Mas, de novo, nos custa acreditar. Muitas vezes tenho ouvido os membros referirem-se ao presidente Ikeda com frases do tipo : "O presidente Ikeda pode fazer isso, mas eu não poderia". Falamos dele como se fosse alguém especial. Sim, é verdade que ele é grande, e eu também sinto-me assim com respeito a ele, mas no mesmo instante em que pensei que ele tem algo que eu não tenho... ele realiza e eu ainda estou na possibilidade. E tenho o mesmo potencial dentro de mim ao ponto que posso aprender com ele através de seu exemplo, das suas orientações e das suas ações que me mostram o que posso fazer e como posso desafiar meus próprios limites para chegar a ser um dos milhares de milhões de presidentes Ikeda e Shin-iti Yamamoto que vivemos neste planeta. Devo me tornar num deles, não simplesmente buscar seu poder.
Neste sentido, a relação Mentor-Discípulo é realmente um modelo de fé religiosa. Representa uma orientação diferente e desafia o discípulo a pensar por si mesmo de uma perspectiva completamente diferente, e possuir um paradigma próprio a respeito de si mesmo.
Um dia desses li um livro interessante: "Por que o cristianismo deve mudar ou morrer", escrito por um bispo episcopal, um tanto radical, de nome Spong. Ele enumera uma série de pontos importantes: primeiro, Deus deve deixar de ser visualizado ou idealizado sob o que ele chama de "imagens elevadas". Enquanto os cristãos continuarem considerando que Deus está "lá em cima" e "lá fora", a igreja estará condenada a morrer porque fica claro que não há nenhum lugar "lá em cima". E onde mais poderia estar? E responde -numa linguagem muito interessante-: "Devemos começar a pensar em Deus do ponto de vista de 'imagens de profundidade'", e acrescenta "Devemos pensar em Deus como uma força que emerge da terra".
Segundo, "devemos deixar de considerar a Jesus como Deus e, ao contrário, começar a vê-lo como um mestre. Na medida em que os cristãos não o façam, a igreja seguirá o caminho para a sua própria morte. Os velhos modelos não funcionam mais. As pessoas já têm evoluído além do modelo feudal".
Terceiro, "devemos deixar de pensar na igreja como numa instituição ou uma entidade formal e começar a vê-la como um conjunto de seres humanos". Interessante, não é mesmo?
Quando terminei o livro, disse a mim mesmo: "Nós vemos o cristianismo converter-se em budismo porque é exatamente isso o que estamos presenciando. E é precisamente esta a razão pela qual, quando os budistas acabam descobrindo uma linguagem comum, poderemos comunicar-nos com tantos e tantos cristãos. Spong também escreve: "Existem milhões que chamamos 'cristãos no exílio' que possuem uma crença básica mas não conseguem ligarem-se com os ensinamentos que descem do púlpito nos nossos dias". Quando encontrarmos a linguagem precisa que necessitamos usar, quando começarmos a nos ligar à eles, emergindo da terra, e Jesus como mestre e tudo isso, então haverá muitas pessoas que se sentirão como no seu próprio lar conosco.
Outro livro, "Soka Gakkai na América", é um estudo de nossa organização realizado por Phillip Hammond da Universidade de Califórnia em Santa Bárbara. Ele fez um levantamento de nossos membros e conseguiu uma análise muito boa de nossa organização. Há muito para aprendermos e faz uma observação muito interessante:
Existem investigações demográficas que mostram a identificação de três linhas básicas de pensamento na América do Norte atualmente. A primeira é representada pelo que se nomeu como "Habitantes Primordiais", que são os fundamentalistas. Essas pessoas tendem a viver à margem das mudanças do mundo. Cerca de 30% dos norte-americanos são "Habitantes Primordiais". Estas pessoas gostariam que retornassem os valores de antigamente, são os que acreditam que o passado é melhor do que o presente e que a questão é regredir àquele tipo de vida. São tradicionalistas, do ponto de vista religioso são fundamentalistas.
O segundo grupo constituem os "Modernistas". Cerca de 40% dos norte-americanos são "Modernistas". Essas pessoas acreditam no progresso e na ciência e, vivem atrás do dinheiro e do êxito, e todas essas coisas, acreditam que obtendo-as serão felizes.
O restante 30% dos norte-americanos são os denominados "Transmodernistas". Esse grupo acredita na ciência, no progresso e tudo mais, mas sabem que não conseguirão o que o grupo anterior acredita que conseguirá e, por isso, vão além: dão grande importância à espiritualidade. Esse grupo se aproxima de nossas crenças quase que exatamente. Acredita-se que existam aproximadamente 44 milhões de norte-americanos que se poderiam chamar de "pró-budistas". Já são budistas, mas ainda não o sabem.
Hammond também ressalta que a maioria de nós, quando encontramos o budismo, não experimentamos uma mudança radical de pensamento. Pelo contrário, quando temos encontrado este Budismo, nos sentimos em casa desde o começo. Sentimos: "Isto é o que eu vinha acreditando!". Hammond diz que, surpreendentemente, não existe um processo de conversão definido, mas há um processo de descobrimento e a sensação de que "finalmente encontrei um grupo, um local, um ensinamento de acordo com aquilo que venho acreditando esse tempo todo". Ele acredita que existam 44 milhões de pessoas esperando somente descobrir que nós existimos. É um pensamento muito estimulante se o analisarmos profundamente.
Por último, creio que a relação Mentor-Discípulo trata principalmente a respeito do desenvolvimento espiritual, moral e de caráter do discípulo. Constitui um desafio para todos nós. É um modelo que nos exige que pensemos de maneira diferente, para irmos além de nossos limites. Já rejeitamos o conceito tradicional de ser humano, e também deixamos de implorar a algum poder externo para que nos ajude porque sentimos que não somos capazes em conseguir outro conhecimento. Então, agora o desafio que enfrentamos está em aceitar e olhar no nosso interior e descobrir a grandeza que existe nas profundezas e nos corações de cada um dos seres humanos, as imensas qualidades de coragem, autoconfiança, esperança, sabedoria e perseverança que todos possuímos em idêntica medida, mas que teimamos em negar. Vivíamos na descrença pois nunca tínhamos encontrado um método pelo qual pudéssemos abrir a chave de nosso depósito de grandeza para deixá-lo fluir livremente.
Pelo contrário, a religião, a filosofia, a educação, vêm nos ensinando que somos limitados. Que é arrogância pensar o contrário, que tais aspirações estão além de nossas possibilidades humanas. Então acabamos depositando nossa confiança e nossa fé em aqueles que acreditamos serem melhores do que nós. É preciso que isto mude.
O estado de Buda reside no despertar para o nosso verdadeiro eu. Nitiren Daishonin nos transmitiu a prática do auto-despertar. Inscreveu sua vida no Gohonzon mas não para que venerássemos sua vida e seu poder, e sim para que, quando defrontamos o Gohonzon, possamos perceber que a chave está alí. E a chave é "Nam-myoho-rengue-kyo - Nitiren". Devotem-se com suas mentes, suas vozes, com seus corpos à Lei Mística de causa e efeito e manifestarão a vida de Nitiren Daishonin no seu interior.
A Lei e o Buda dentro de nossas vidas são um só. O Gohonzon é uma mensagem às gerações futuras pois Nitiren compreendeu a natureza humana: sabia que a chave se perderia assim que ele desaparecesse. Imagino o que ele se perguntou: "Como posso enviar uma mensagem ao futuro de maneira tal que, ainda que percam a chave, qualquer um possa redescobrí-la para revelar o grande significado, o grande poder do Budismo e da prática budista?" Então a colocou diante de nós.
Sim, à nossa frente está a chave. Mas se recitarmos daimoku frente ao Gohonzon pensando que o poder está fora de nós, achando que o Gohonzon irá sair por aí para fazer as coisas por nós, então não compreendemos a chave.
Com certeza, o clero da Nitiren Shoshu tem mal interpretado a chave. Eles acreditam (e é o que ensinam) que o Dai-Gohonzon constitui a raiz, que o Sumo Prelado é o tronco e que o sacerdote é o galho. Que nosso Gohonzon é a folha e que o poder de nossos Gohonzon provêm dele . Acreditam que Nam-myoho-rengue-kyo significa "Eu o tenho" em vez de "Nós o temos". Acham que "Nam-myoho-rengue-kyo - Nitiren" significa "Eu sou o Buda Verdadeiro" em vez de "Todos nós somos os Budas Verdadeiros e Originais". (Diga-se de passagem, as "folhas" de nossos Gohonzon caíram da árvore (segundo disse o reverendo Nagasaki em New York). Obviamente, isto é incorreto. Se vocês lêem o Gosho fica claro que não é este o caso. Mas é compreensível porque, nas profundezas dos seres humanos sempre existe esta absurda descrença em nós mesmos, esta falta de vontade e este impulso de confiar em alguém para que dirija nosso leme. "Estou rodeado de todas estas pessoas (os bonzos) que parece que sabem o que fazem, por isso depositarei minha confiança neles". E este é um grande erro.
O verdadeiro benefício da problemática do clero reside em que finalmente podemos aprender o verdadeiro modelo de fé religiosa, porque nós, antes desta ruptura, também depositamos nossa fé neles. Se bem que a confiança constitui um aspecto importante da fé, devemos usá-la para confiar nos nossos antecessores, para confiar nas outras pessoas mas, sem perder de vista que, em última instância, nós somos os únicos responsáveis de nossa própria vida. A vida é uma viagem. Existem passageiros e existem motoristas. Mas necessita-se de motoristas.
Existem muitas, muitíssimas pessoas que são simples passageiros de suas próprias vidas, deixando sempre que outro as conduza. Quantas vezes a gente diz: "Você está me deixando bravo... Chega!"? Quem fala isto é alguém que está atrás do motorista. Esse é um passageiro. O que estamos dizendo é: "Você tem poder sobre às minhas emoções. Não tenho controle. Você conduz minha ira e, enquanto continuar fazendo o que está fazendo, eu continuarei a me sentir irado. Chega!". E assim a vida transforma-se num passageiro que obedece ao motorista. Nós nos vemos obrigados a manipular o comportamento dos outros, a dar-lhes instruções, a pedir-lhes que façam o que necessitamos para que nossas emoções não fujam do controle. É um conceito totalmente absurdo. Não há dúvida de que, com esta maneira de pensar, entregamos o volante de nossa vida a outros, e agora nos sentimos frustrados e furiosos porque não dirigem bem.
Recuperemos a direção. Comecemos a conduzir e dirigir nossas próprias vidas. Possuímos o poder mais importante do universo que é o poder que se encontra dentro de nossas vidas, podemos escolher nosso estado de vida. Quando alguém fizer algo que não gostemos, não é necessário que fiquemos bravos. Sempre nos comportamos assim porque acreditávamos que era a única opção, mas temos dez opções.
Se alguém faz algo que não gostamos, podemos ir para o Inferno. Podemos comer algo. Vejamos... animalidade... poderíamos maltratar ou algo parecido, poderíamos ficar irados, essa também é uma escolha. Podemos nos retirar, nos retirar ao nosso quarto, pôr os fone de ouvido e escutar música. Ou entrar em êxtase e dizer: "Oh, adoro quando você faz isso". Ou poderíamos até ser um pouco mais provocadores: "Bom, realmente estou aprendendo graças ao que você faz". E ainda mais, "Estou sentindo um despertar", ou poderíamos sentir benevolência "Realmente gostaria de poder te ajudar"... ou poderíamos alcançar o estado de Buda. Todas estas opções estão ao nosso alcance.
Mas enquanto acreditarmos que não temos opção, estaremos presos nos seis estados mais baixos e continuaremos sendo somente passageiros de nossas próprias vidas. O Nam-myoho-rengue-kyo trata a respeito do instante, de escolher a cada instante, de escolher a cada pequeno e único instante de nossas vidas, de retomar o controle e o poder sobre nossas opções. Nós não determinamos o comportamento dos outros, nem sequer podemos controlá-los. E isto é algo bom porque francamente não acredito que faríamos um bom trabalho controlando a vida de outra pessoa.
Recuperemos o controle de nossas vidas. Desejemos ardentemente ao maior. Isto está no nosso interior, não há nada que nos falte. Tudo o que necessitamos para ser absolutamente felizes já se achava em nós desde o primeiro dia das nossas vidas. O que acontece é que não acreditamos nisso. Não confiamos. Nos custa aceitá-lo. Parece que não possuímos, parece que nos falta algo. Pelo motivo de que nós estivemos passando por coisas ruins ao longo dos anos, sentimos que algo anda mal com nós mesmos.
Mas não há absolutamente nada de mal em nós. Se existe algo errado é a nossa maneira de pensar, contudo não há nada de errado "conosco". E esta distinção marca a diferença: podemos facilmente mudar nossa maneira de pensar. Mudar a nós mesmos por completo seria muito mais difícil, mas não é necessário, porque não há nada de errado conosco. Os budistas vieram em diferentes medidas, formas e estilos, com muitas variações de caráter e todos vivemos imersos na ilusão.
Concluindo, minha esperança é que, de alguma forma, este conceito de Mentor-Discípulo esteja agora um pouco mais claro, ou ao menos um pouco mas fácil de compreender. Creio firmemente que, em última instância, seguimos a Lei. Mas a Lei não nos fala, então precisamos de mestres. Também podemos aprender uns com outros, mas no fim, só resta mesmo eu, meu carma e o Gohonzon. Ninguém mais. Somente eu mesmo posso ultrapassar minhas próprias dificuldades. Somente eu mesmo posso ultrapassar minhas ilusões. Só eu mesmo posso abrir e revelar minha grandeza interior. A prática budista é o método, e é sensacional ter um treinador que nos diga como alcançá-lo. Que nos incentive quando estamos desanimados, sem esperança, quando nos esquecemos, quando não acreditamos que somos Budas. É maravilhoso quando lemos algo que nos incentiva, que nos lembra: "Sim, você é um Buda". É esse o papel de um bom mestre. O Buda é o treinador, mas somos nós os que devemos jogar a partida e ninguém pode jogar por nós.
Então, a partir de agora, - se ainda vocês não têm conseguido experimentar a relação Mentor-Discípulo nas suas vidas -, pelo menos, desejo que possam terminar este dia sentindo: "Bom, acho que pelo menos vale a pena tentar". Pode ser que tenha que lutar corpo a corpo com minhas dúvidas e incertezas, talvez tenha que tentar compreender aquilo que me faz sentir incomodado. Não devo disfarçar este assunto, não devo achar que desaparecerá sozinho nem devo encará-lo de maneira superficial ou simplesmente seguir o hábito como os outros".
Acredito que a relação Mentor-Discípulo é a chave para ter acesso aos nossos tesouros, para nos enxergar de uma perspectiva diferente, para despertar de nosso sonho e descobrir o Buda Verdadeiro, o estado original de Buda que existe dentro de todas as pessoas. Muito obrigado e tenha um grande dia!
Obs. Este site (BLOG) é pessoal, não oficial e seu conteúdo é meramente cultural/educacional sem finalidade lucrativa.

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