"Quando sua determinação muda, tudo o mais começa a se mover

em direção ao seu desejo".

29 de jul de 2008

A força que cria, nutre e mantém a vida


A energia constitui o substrato básico do Universo.


Na física, energia é a propriedade de um sistema que lhe permite realizar um trabalho, podendo ser manifestada de várias formas (calorífica, cinética, elétrica, eletromagnética, mecânica, potencial, química, radiante) transformáveis umas nas outras. A energia não é criada, é transformada.

Esse infindável sistema de energia satura todas as coisas no Universo, animadas e inanimadas, envolvendo tudo num eterno processo de transformação, propagação e interação.

O budismo interpreta todo o Universo como uma única grande força vital e a chama de Nam-myoho-rengue-kyo — a Lei que rege e preserva a harmonia em todo o mundo fenomenal. Na obra Vida — Um Enigma, uma Jóia Preciosa, o autor Daisaku Ikeda afirma: “No mais profundo interior de todos os seres, existe a primacial força que faz com que vivam. A mesma força suporta a matéria inorgânica no sistema de harmonias e ritmos da grande existência cósmica. No budismo, essa força total é denominada por muitos nomes, porém o mais apropriado é Myoho, a Lei Mística. Essa é a energia de que precisa toda vida, que cria e recria a existência, tanto a espiritual como a material.

“Quando essa força se manifesta no mundo físico, aparece como um sistema que governa o mundo inorgânico, que torna possível a composição química e que controla as pulsações do Universo. Em outras palavras, as leis da física, da química e da astronomia são simplesmente particulares manifestações fenomenológicas da Lei Mística do cosmo. Da mesma forma, a força vital cria o mundo do espírito, cria a inteligência, dá força aos desejos e aos instintos e, assim, produz todas as variações da atividade mental e espiritual. É o que em outras religiões é chamado de Deus, mas diferente da Divindade Maior pelo fato de ser perfeitamente imanente no cosmo e na vida humana. Não é uma força fora do Universo. É o próprio cosmo. A verdadeira natureza do cosmo e da vida é a fusão das leis física e espiritual da vida. É o processo que cria a existência e a faz desdobrar-se infinitamente.”1

Tanto a energia física como a espiritual são faces diferentes da mesma energia primordial que sustenta todas as funções do Universo. Essa energia, em termos budistas, é chamada de energia vital. Falar em energia vital equivale a falarmos da essência fundamental do ser humano, assim como de todos os outros seres e do próprio Universo. Ao realizarmos a prática budista, verificamos de forma efetiva como podemos manifestar essa energia contida em nosso interior. A recitação do Nam-myoho-rengue-kyo ao Gohonzon é a prática revelada por Nitiren Daishonin para que possamos evidenciar esse potencial inerente em nós.




Energia criativa ou destrutiva, positiva ou negativa: Como direcionar nossa energia




As ciências têm comprovado que os seres humanos utilizam uma pequena parte de seu potencial cerebral. Da mesma forma, muitas vezes, as pessoas não se dão conta da enorme quantidade de energia que possuem interiormente, limitando suas ações ao enfrentarem dificuldades e problemas. Em vez de reagirem, são arrastadas pelo pessimismo e acabam sucumbindo ao estresse, à depressão ou a outros males.

Para aumentar a energia física podemos nos valer de uma alimentação rica e saudável ou então exercitar o corpo. Mas, e quanto à nossa energia espiritual?

O objetivo da prática budista é elevar nosso estado de vida para que possamos canalizar nossas energias de forma plena e benéfica, tanto para nós próprios como para os outros.A energia interior de cada pessoa poderia ser comparada a um potente motor de um carro, mas que depende das rodas, que representam a ação concreta, e do sistema de direção, que corresponde à sabedoria inata. Dessa forma, a diferença entre uma existência envolvida somente em sofrimentos e ilusões e uma vida conscientemente direcionada para a felicidade de si e das demais está na ampla manifestação da energia interior e, mais que isso, do seu correto direcionamento. Sobre essa questão, Daisaku Ikeda comenta: “Somos livres para escolher o caminho e a habilidade para seguir o certo é inata ao homem. A questão é como desenvolver a sabedoria potencial inerente à nossa força vital, a fim de que funcione para a existência e a criatividade no Universo. Se um ser humano possuir a habilidade para amar e confiar, mas se for fraca a força motivadora dentro dele, não estará apto a influenciar outros seres humanos quanto mais a vida humana como um todo. Em contrapartida, se uma pessoa tiver uma poderosa força motivadora, mas for assaltada pela dúvida, a suspeição e o antagonismo com relação a outras pessoas, será capaz de destruir a si própria e à vida humana como um todo. Quando descobrirmos como empregar a nossa força vital para a criação e apoio à existência — tanto no nível humano como no cósmico — e quando descobrirmos como viver em verdadeira harmonia com o Universo, a filosofia da unidade entre a vida com o Universo, a filosofia da unidade entre a vida subjetiva e o meio ambiente objetivo se tornará a grande e prática sabedoria da humanidade.”2




A energia vital, os dez mundos e os dez fatores




No budismo há os conceitos chamados de dez mundos (jikkai, em japonês) e dez fatores da vida (junyoze). Os dez mundos, conhecidos também como dez estados ou condições da vida, são: Inferno, Fome, Animalidade, Ira, Tranqüilidade, Alegria, Erudição, Absorção, Bodhisattva e estado de Buda. Os dez fatores oferecem uma maneira de examinar e compreender qualquer condição momentânea da vida na sua forma verdadeira, quer esteja no estado de Inferno ou no de Alegria, ou em qualquer outro dos dez mundos. Eles esclarecem os elementos que se combinam para que mudemos.

Os dez fatores são: Aparência (nyoze-so), natureza (nyoze-sho), entidade (nyoze-tai), poder (nyoze-riki), influência (nyoze-sa), causa interna ou inerente (nyoze-in), causa externa ou relação (nyoze-en), efeito latente (nyoza-ka), efeito manifesto (nyoze-ho) e consistência do início ao fim (nyoze-honma-kukyoto).

Enfatizaremos aqui o quarto fator, o poder. Trata-se da força interior com a qual a vida é inerentemente dotada. É a energia em potencial que pode ser usada na direção da circunvizinhança de uma pessoa, ou seja, é a força de motivação da vida de um indivíduo.

A energia vital se manifesta de acordo com os dez mundos permanentemente em mutação. Assim, ela aumenta em intensidade e se aperfeiçoa qualitativamente dos mais baixos aos mais altos estados da vida. Por exemplo, no estado de Inferno, uma pessoa possui pouca força motivadora que na maioria das vezes é usada contra sua própria vida ou de outras. Trata-se pois de um potencial destrutivo. No estado de Ira, a força motivadora é evidenciada pela sede do poder. Nos estados superiores, como os de Bodhisattva e Buda, essa força manifesta-se na forma de benevolência. No estado de Buda essa benevolência é capaz de englobar todas as outras energias dirigindo-as a propósitos elevados como aliviar o sofrimento de outras pessoas.

Em síntese, quanto mais elevamos nosso estado de vida, mais energia ou força motivadora acumulamos e, conforme observamos, a benevolência é a fonte fundamental de energia.




O que ocorre com a energia de uma pessoa após a morte




Quando estamos vivos a energia nos mantém unos ao cosmos e, ao falecermos, torna-se a força que nos garante o renascimento.

As ações que realizamos em vida são portanto fundamentais para o renascimento. Após a morte, a energia permanece latente.

A esse respeito, Daisaku Ikeda comenta: “Muitas pessoas me perguntam se não há nada que uma pessoa morta possa fazer para influenciar sua própria existência. A resposta, receio, é não. O eu em estado de morte (de kuu) é totalmente incapaz de automotivação. (...)

“O budismo reconhece um — e somente um — meio pelo qual uma pessoa em estado de morte pode aperfeiçoar-se. É através das ações dos vivos. Embora não nos possamos comunicar com os mortos ou intimá-los a voltar à vida por um passe de mágica, é nos possível — com a nossa própria prática do budismo — arrancar a energia da vida cósmica e transferi-la aos amados falecidos. (...)

“Quanto mais energia a vida dormente recebe por esse meio, maior é o potencial para a remanifestação como ser vivo, possivelmente até num estado mais alto de existência do que o de antes do falecimento.”3

A recitação do Nam-myoho-rengue-kyo e as ações altruísticas são o que possibilitam ao praticante budista acumular energia vital para enfrentar as dificuldades e realizar suas atividades diárias.
Notas: 1. Daisaku Ikeda, Vida — Um Enigma, uma Jóia Preciosa. Editora Record, pág. 28. 2. Ibidem, pág. 49. 3. Ibidem, págs. 238–239.




MARÇO DE 2002 — EDIÇÃO Nº 403

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