"Quando sua determinação muda, tudo o mais começa a se mover

em direção ao seu desejo".

3 de dez de 2012

DO SONHO Á PREMONIÇÃO


Manifestações da mente: Do sonho à premonição

Edição 475 - Publicado em 01/Março/2008 - Página 58

Última parte

Paulo Kiyoshi Endo, vice-presidente da BSGI; Valter Takeshi Hada, coordenador do Núcleo de Estudos de Religiões da Coordenadoria Cultural e vice-coordenador da Divisão Sênior da BSGI; e Jaqueline de Matos Nascimento, psicóloga, membro do grupo Flor de Lótus do Departamento de Saúde da Coordenadoria Cultural da BSGI.

Jaqueline de Matos

Paulo Endo

Valter Hada
Valter Takeshi Hada: O vínculo afetivo e o contato pelo inconsciente são algumas das razões comentadas anteriormente para explicar acontecimentos que as pessoas prevêem em sonhos. Comentamos também sobre a questão da sensitividade (ou percepção) que uns possuem de forma mais desenvolvida que outros. Acredito que as premonições estejam totalmente relacionadas a tudo isso, visto que o significado da palavra é “sensação ou advertência antecipada do que vai ocorrer”, “pressentimento”, “presságio”.
Jaqueline de Matos Nascimento: Correto. Nós, muitas vezes, consideramos sonhos e premonições como manifestações incomuns, pois compreendemos os acontecimentos só com base no consciente. Porém, temos o inconsciente, que age totalmente na consciência, mas não percebemos a manifestação dele tão claramente. Quando conseguimos compreender o inconsciente, de fato, percebemos muitas situações que estão além do que enxergamos apenas no momento presente.
Paulo Kiyoshi Endo: Esse é, justamente, o objetivo da prática budista. Ao recitarmos Nam-myoho-rengue-kyo, purificamos os seis órgãos sensoriais: olhos, ouvidos, nariz, língua, pele e mente. Assim, podemos ver, ouvir, sentir todos os fenômenos existenciais com base na sabedoria do estado de Buda. Essa sabedoria não é algo sobrenatural, mas um nível de consciência que nos possibilita compreender essencialmente cada fato da vida. O presidente da SGI, Daisaku Ikeda, descreve esse conceito na seguinte passagem da Preleção dos Capítulos Hoben e Juryo: “O Sol se levanta e ilumina a Terra. De forma semelhante, os que mantêm a Lei Mística devem compreender as questões seculares. A fé faz com que o sol da sabedoria desponte em nosso coração, possibilitando-nos enxergar claramente o que precisamos fazer para vencer na vida”.1
Hada: Portanto, a iluminação não é algo separado da realidade, mas uma condição em que a pessoa é capaz de perceber a essência da vida e de tudo o que a impede de ser verdadeiramente feliz. O presidente Ikeda afirma: “Quando o Buda observa os fenômenos, ele compreende a essência real de cada um deles. Quando o Buda observa as pessoas, ele compreende o estado de vida delas e enxerga naquele indivíduo a natureza de Buda. (...) Pode-se dizer que a sabedoria da essência real de todos os fenômenos é a capacidade de discernir a verdadeira natureza de tudo”.2 Nesse sentido, quando guiada pela sabedoria do estado de Buda, uma pessoa pode, realmente, perceber todas as situações de maneira clara. Isso não significa, como já dito, desenvolver poderes sobrenaturais, mas a sabedoria para determinar o futuro.
Jaqueline: De nada adianta desenvolver uma percepção aguçada, prever acontecimentos se a pessoa não puder fazer nada para mudar o futuro. Isso, provavelmente, provocará sofrimento ou sentimento de impotência.
Endo: Na perspectiva budista, ao falar de premonições, pode-se traçar um paralelo com a lei de causa e efeito. Para qualquer acontecimento, há uma causa que gera um efeito. Se tivermos consciência das causas que realizamos em cada momento, certamente poderemos “prever” o futuro, conforme esta famosa frase do Sutra Contemplação da Mente-Solo citada por Nitiren Daishonin em “Abertura dos olhos”: “Se deseja saber que causas foram feitas no passado, observe os resultados que se manifestam no presente. E se deseja saber que resultados serão manifestados no futuro, observe as causas que estão sendo feitas no presente”.3
Hada: Na “Tese sobre o estabelecimento do ensino correto para a paz da nação”, Daishonin tentou alertar as autoridades da época para os desastres e as calamidades que a nação sofreria por contrariarem o ensino correto. Exatamente tudo o que o Buda escreveu na Tese veio a ocorrer na época. Seriam premonições ou a compreensão profunda da lei de causa e efeito? Acredito que seja a segunda opção.
Jaqueline: Há pessoas que, de fato, conseguem prever catástrofes ou acontecimentos pela percepção aguçada que possuem. Porém, como dito, para que serve a capacidade de premonição se são incapazes de mudar o futuro? Se uma pessoa prevê um fato, mas não é capaz de tomar alguma atitude, realmente, essa premonição não tem sentido. Muitos gostam de dizer que possuem a sensibilidade de prever acontecimentos por desejarem assumir a posição de seres supremos, poderosos. O importante, porém, é saber conduzir a percepção para algo de valor.
Endo: O sobrenatural está completamente fora dos ensinamentos budistas. Aprendemos no budismo o conceito de “místico”, que significa algo além da compreensão, mas não que seja sobrenatural.
Jaqueline: Podemos dizer que o desejo de prever o futuro vem do medo do desconhecido. A título de conhecimento, na busca por meios para solucionar essa questão, o homem desenvolveu muitas técnicas de adivinhação, como a astrologia, os biscoitos da sorte, a cartomancia, a leitura das mãos, o tarô, entre outras. Na Antiguidade, as pessoas consultavam os oráculos acerca de assuntos que lhes eram vitais. Atualmente, a sociedade ouve com muita atenção o que dizem futurólogos que não possuem poderes místicos, mas uma aguçada percepção das tendências do mundo. Com base nisso, eles fazem previsões sobre o futuro da tecnologia, do meio ambiente, da economia, enfim, do mundo. Porém, como o budismo bem explica, o mais importante é o momento presente, pois todas as atitudes que tomamos neste momento resultarão em efeitos futuros.
Hada: Exato. Isso é explicado também pelo princípio budista de “três mil mundos num único momento da vida” (itinen sanzen, em japonês). Esse princípio sustenta a idéia de que cada momento está dotado de três mil diferentes funções, as quais influenciam não apenas nossa vida mas também a sociedade, o ambiente natural, o mundo e o Universo. Uma vez tomada a decisão de realizar algo, as três mil funções e o ser começam a agir para concretizar essa determinação. Num momento decisivo, tanto a causa como o efeito são gravados simultaneamente na vida do indivíduo. Portanto, se a pessoa realiza sinceramente a prática budista em conformidade com os ensinos de Nitiren Daishonin, usufruirá, seguramente, boa sorte e prosperidade no futuro.
Endo: O princípio de itinen sanzen, um dos mais importantes conceitos budistas, foi apresentado pelo Grande Mestre Tient’ai (538–597), da China, na obra Maka Shikan (Grande Concentração e Discernimento). Literalmente, itinen significa “uma mente”, “um momento da vida” ou “essência da vida”; sanzen quer dizer “três mil” ou “o fenômeno que a vida manifesta”. Com esse princípio, Tient’ai quis mostrar que todos os fenômenos — corpo e mente, ser vivo e ambiente, causa e efeito — estão integrados num simples momento da vida das pessoas. Isso quer dizer que são três mil condições pelas quais a vida pode manifestar-se como fenômeno. De forma simplificada, a palavra itinen é expressa como “determinação”. A determinação de uma pessoa no exato instante em que é firmada definirá o rumo da própria vida.
Jaqueline: Não há necessidade de querermos adivinhar o futuro. Também não há razão para termos medo do amanhã. O futuro ou o desconhecido nos oferece oportunidades e surpresas maravilhosas. É isso o que torna a vida extremamente interessante e significativa. Deveríamos, em vez disso, nos preocupar em viver o momento presente de forma intensa e sábia.
Hada: Ser feliz é o objetivo primordial da prática budista. Tudo o que nada acrescenta para a concretização disso deve ser descartado. O importante é termos a consciência elevada de que qualquer iniciativa parte do ser humano, de nossa própria mente, e retorna para nós mesmos, como o presidente Ikeda constantemente tem nos ensinado.
Endo: A mente humana é certamente misteriosa; é capaz de criar e projetar qualquer evento. Por isso, é essencial viver com base na prática budista para “tornar-se mestre da própria mente, em vez de permitir que ela o domine”, conforme escreveu Nitiren Daishonin em “Carta a Guijo-bo”.4 Se agirmos dessa forma, compreenderemos que temos nas mãos o poder para transformar o veneno em remédio, e não nos deixaremos levar por pressentimentos negativos ou pensamentos pessimistas.
Notas
1. Preleção dos Capítulos Hoben e Juryo do Sutra de Lótus. Editora Brasil Seikyo, p. 132.
2. Ibidem, p. 121.
3. Os Escritos de Nitiren Daishonin, v. 4, p. 197.
4. Cf. The Writings of Nichiren Daishonin, v. 1, p. 390.

Um comentário:

Robert Prado disse...

Pois é. A mente do Estado de Buda flui, não reprime os pensamentos e sentimentos. O grande poder do Daimoku é determinar causa e efeito a cada momento, transformando passado (negatividade), presente (fato) e futuro numa única decisão. Imagine centenas de decisões feitas num único dia, por meio de palavras, pensamentos e ações governadas pela Lei Mística. Há dúvida de que o Daimoku fornece essa grande concentração?